Elevados índices de insucesso: em que é que a escola actual estará a falhar?

Autor: José Mota
Data: Jan 10 2006 8:17:PM   
Assunto: Re:Elevados índices de insucesso: em que é que a escola actual estará a falhar? (à luz destes pressupostos) 
 
Respondendo a uma questão interessante levantada pelo António Jorge Costa: “Penso que um ponto interessante para a nossa discussão poderia ser precisamente esta questão do insucesso, na medida em que, no meu ponto de vista, configura o falhanço de certas intervenções ( por falta ou por má aplicação) à luz dos pressupostos que aqui abordamos).”

Essa António, é uma discussão que dava para mais uma semana, no mínimo ;-) As razões que apontas são válidas e, acho eu, verdadeiras, como são as que o Manuel e a Susana também já referiram, de carácter social e económico. De qualquer modo, acho que o desejo de resolver problemas que se afiguram difíceis e muito persistentes tem levado a que se atribuam cada vez mais responsabilidades à escola na educação/formação das pessoas, com o consequente alargamento das competências exigidas aos professores, ignorando-se (às vezes por comodidade, outras por impotência) que a responsabilidade de educar/formar as pessoas é de toda a sociedade no seu conjunto. A escola desempenha aí um papel importante, mas não pode ser vista como a solução milagrosa de todos os problemas, nem isso se consegue pelo simples aumento das exigências.

Como já disse, parece-me que o discurso sobre a educação atingiu um ponto de saturação e de desgaste. De tanto se repetirem algumas ideias importantes e certamente produtivas, esse discurso transformou-se nnuma espécie de manto que acaba por nos impedir de ver as coisas com clareza, e muitos desses conceitos acabaram por tornar-se em clichés que usamos (e aqui me incluo, certamente) sem pensar no que exprimem em concreto. Como se diz no mundo anglo-saxónico, acho que é altura de “back to the basics”, ou seja, simplificar as questões e devolver à escola uma identidade mais simples e mais de acordo com o que ela pode oferecer.

As visões de escolas fantásticas habitadas por super-professores com um leque de competências de tal dimensão que faria corar de vergonha qualquer prémio Nobel resulta do entusiasmo de quem se senta a escrever, e vê ali outra falha importante que a escola poderia suprir (há falta de outros contextos disponíveis) e os professores concretizar, mas é naturalmente uma visão votada ao insucesso.

Há agentes e contextos que têm uma influência fundamental na educação/formação das pessoas, e que têm que tomar consciência disso e ser responsabilizados por isso. Muitos deles têm, até, um poder com o qual a escola dificilmente poderá competir, como sejam a televisão, a publicidade e várias formas de entretenimento/consumo dirigidas a crianças e jovens. Esperar que a escola forme o que outros se esforçam, com meios poderosos e eficientes, por deformar, ou pedir-lhe que assuma responsabilidades que deveriam estar sediadas no meio familiar é o que mais se tem feito nas abordagens a estes problemas.

É evidente que há muitos aspectos a melhorar na escola dentro da sua área natural de actuação, e muito a fazer na selecção (aqui nada se faz) e na formação dos professores. Se calhar, a começar por mudar a própria escola, que, como alguém já referiu (e que não consegui encontrar no emaranhado em que vai a discussão), tem que formar cidadãos do século XXI, mas tem um modelo herdado maioritariamente do século XIX. Se calhar, começando por dar a grande prioridade ao investimento no ensino pré-primário e no 1º ciclo do ensino básico (onde pululam situações que já não existem nos países desenvolvidos há 40 ou 50 anos), eventualmente uma das razões fundamentais para explicar o nosso atraso cultural. Depois, aceitar que também a diversidade de estilos, métodos e práticas, desde que coerentes e fundamentados, é uma coisa boa na escola, como na vida em geral, e deixarmo-nos de correr atrás de cada nova corrente que surge, tentando pôr toda a gente a fazer a mesma coisa da mesma maneira.
 

Leave a Reply