Acho que um dos aspectos essenciais para enquadrar bem a abordagem que Dillenbourg tem aos AVA é perceber que estamos perante uma perspectiva que se enraiza no ensino presencial e não no ensino a distância ou no ensino online. Isso explica as comparações recorrentes, a tendência para os olhar mais como espaços complementares do que como constituindo a base de um novo domínio educativo, ou o enfoque indisfarçável nas supostas vantagens do b-learning, que é um dos grandes equívocos actuais no que toca ao e-learning, geralmente a linha de fuga das instituições presenciais que querem dar um ar da sua graça no que toca ao admirável mundo novo sem grandes mudanças: continuamos a fazer o mesmo de sempre, pomos umas coisas online e aí estamos nós a fazer b-learning. Não quer isto dizer que o texto de Dillenbourg não seja bem interessante, ou que nele não encontremos alguns aspectos fundamentais a reter:
- o primado dos aspectos pedagógicos sobre os aspectos tecnológicos, várias vezes referido, que é uma mensagem nada fácili de fazer passar;
- a distinção muito feliz entre espaços (spaces) – onde existe a informação, e lugares (places) – onde existem vivências e interacções (uma cultura, também);
- a noção clara de que o grande desafio pedagógico não é imitar as interacções presenciais, outra mensagem terrivelmente difícil de fazer passar, face à dependência da presencialidade que reclama sempre pelos chats, video-conferências, etc., mesmo se à custa de argumentos que derivam mais da idealização da realidade do que da realidade ela mesma (e.g. o suposto calor humano, a comunicação olhos nos olhos, a interacção espontânea e viva, etc. etc., que pura e simplesmente estão ausentes na maior parte dos contextos presenciais de ensino superior);
- ligado a este aspecto, a noção de que os grupos de utilizadores e as ferramentas constituem sistemas cognitivos distribuídos, que se auto-organizam para se adaptar ao contexto, não havendo por isso perda relativamente ao ensino presencial, mas diferença;
- a ideia de que um sentimento de comunidade não emerge do simples facto de as pessoas comunicarem por via electrónica, que é preciso muito tempo, muita interacção, a partilha de objectivos e de experiências;
- a noção de que a aprendizagem também significa/é uma entrada numa nova cultura, específica de uma profissão ou actividade (daí a importância crescente das comunidades de práticas);
- a migração da noção de colaboração da aprendizagem para o ensino – o desafio de transformar o ensino numa performance colectiva (e mais uma vez a importância das comunidades de práticas);
- a constatação, para muitos certamente surpreendente, que as práticas de ensino nos contextos online têm constituído uma fonte de renovação e inovação, com um impacto positivo nas práticas de ensino nos contextos presenciais.
Relativamente à caracterização específica dos AVA, parece-me apenas que o “caderno de encargos” requerido para merecer a designação é um pouco excessivo, sobretudo se compararmos com a facilidade com que se consegue o título de AA O ponto 1.3, por exemplo, além de ser um requisito muito exigente, é contrário à ideia (ou assim parece, à partida), de que os AVA podem acolher uma grande diversidade de abordagens pedagógicas; o ponto 1.7 é um problema da perspectiva de partida, perspectiva essa que parece ser também a fonte de alguma confusão nesta ideia um pouco limitada e simplista dos AVAs como uma nova geração de aprendizagem mediada por computador, entendendo esta (o EMC) sobretudo como auto-aprendizagem sem professor.
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