3.2.3. O Modelo da Comunidade de Inquirição

Como vimos, o papel do professor no ensino online é essencial para o sucesso na construção de uma comunidade de aprendizagem e para o estabelecimento de um clima propício à aprendizagem colaborativa. Iremos agora tentar explorar um pouco as formas como ele pode levar a cabo essa tarefa difícil e complexa.

O modelo teórico elaborado por Randy Garrison, Terry Anderson & Walter Archer para o ensino online (2000) e posteriormente desenvolvido por Garrison & Anderson (2003), designado Community of Inquiry  (Comunidade de Inquirição[1], é geralmente considerado como uma das propostas mais completas e integradas no que se refere ao papel do professor neste contexto de ensino. Ele constitui uma abordagem equilibrada na confluência entre uma perspectiva construtivista da aprendizagem e do conhecimento, baseada na interacção e no trabalho colaborativo, e a procura da garantia de qualidade e rigor que devem nortear a formação académica. É nesse sentido que a descrevemos aqui sucintamente, centrando-nos nos aspectos mais relevantes para as questões em discussão.

Segundo Garrison & Anderson (2003), o que o e-learning proporciona, através do suporte à comunicação assíncrona e colaborativa, é a concretização desse ideal tradicional da educação como uma comunidade crítica de aprendentes, tendente à realização de uma aprendizagem relevante, significativa e continuada. Estes autores partem da premissa de que uma comunidade de aprendentes é um elemento essencial e constitutivo de uma experiência educativa em que o objectivo desejado seja aquilo que designam como «higher-order learning” (op. cit.: 22), e que definem como, citando Lipman, “higher-order thinking that is conceptually rich, coherently organized, and persistently exploratory”.

Essa comunidade de inquirição envolve três elementos críticos, que interagem entre si e se influenciam mutuamente: a presença cognitiva, a presença social e a presença de ensino. A presença cognitiva é entendida como a capacidade dos estudantes construírem e confirmarem significados através da reflexão e do discurso numa comunidade crítica de inquirição. Ou seja, é ela que garante que ocorrem aprendizagens relevantes num ambiente que suporta o desenvolvimento de capacidades de raciocínio complexo e crítico. A presença social refere-se à capacidade dos participantes nessa comunidade para se projectarem social e emocionalmente enquanto pessoas reais, através dos meios de comunicação utilizados. Nesse sentido, é essencial garantir o estabelecimento de um ambiente em que os estudantes se sintam à vontade e em segurança para exprimir as suas ideias num contexto colaborativo. A presença de ensino define-se como o desenho, a facilitação e a orientação de processos cognitivos e sociais no sentido de alcançar resultados de aprendizagem que sejam significativos a nível pessoal e relevantes do ponto de vista educativo. Ela constitui aquilo que o professor faz para criar uma comunidade de inquirição que inclui tanto a presença cognitiva como a presença social.

No processo de criação de uma presença de ensino efectiva, o professor desempenha três funções fundamentais: desenho e organização, facilitação do discurso e instrução directa. Desenho e organização refere-se ao processo de estruturação e planeamento do processo de aprendizagem, bem como ao seu acompanhamento. Facilitação do discurso prende-se com a promoção, suporte e regulação das interacções e das discussões, assegurando a construção de significado e a compreensão mútua. Instrução directa está associada ao papel do professor enquanto especialista, providenciando informação, clarificando mal-entendidos ou interpretações erróneas dos conteúdos e orientando as discussões e a aprendizagem para se alcançarem resultados relevantes. Garrison & Anderson são bastante enfáticos neste ponto, recusando o conceito de “guide on the side” defendido por alguns autores como, por exemplo, Gilly Salmon na obra E-Moderating: The Key to Teaching and Learning Online (2000). Para esta autora, o papel do e-moderador resume-se ao de facilitador, não necessitando de qualquer conhecimento especializado dos conteúdos. Diz Salmon a propósito dos e-moderadores: “they need a qualification at least at the same level and in the same topic as the course for which they are moderating” (op. cit.: 41). E Garrison & Anderson contrapõem:

While this concept may have some value at times, in and of itself is limited as an approach to e-learning. It suggests an artificial separation of facilitator and content expert, and speaks to the potential distortion of an educational experience that has become pathologically focused on student-centredness to the exclusion of the influence of a pedagogical and content expert in the form of a teacher. Such a laissez-faire approach misinterprets the collaborative-constructivist approach to learning and the importance of systematically building learning experiences (i.e. scaffolding) to achieve intended, higher-order learning outcomes. (op. cit.: 70)

Contudo, importa referir que, embora os autores atribuam este papel importante ao professor em termos da presença de ensino, ressalvam que, numa comunidade de inquirição, todos os participantes têm a possibilidade de contribuir para essa mesma presença de ensino. À medida que os participantes se vão desenvolvendo social e cognitivamente, a presença de ensino vai-se tornando gradualmente mais distribuída.

Em termos das orientações práticas fornecidas pelos autores, iremos apenas aludir às que se referem à função de facilitação do discurso, já que esta constitui, segundo eles, o maior desafio com que se confronta o professor no contexto do ensino online, por um lado, e por ser a que se relaciona, de forma mais evidente, com a criação de uma comunidade de aprendizagem e o estabelecimento de um ambiente propício à aprendizagem colaborativa, por outro:

Discourse goes to the core of the e-learning experience in that interaction is where the strength of e-learning lies and is the essence of an educational experience as evidenced by a collaborative inquiry-based process. (op. cit.: 85)

Assim, e tal como acontece com as outras duas dimensões da presença de ensino, os autores fazem um conjunto de sugestões relativas a questões da presença social e da presença cognitiva que a facilitação do discurso deve considerar.

Presença social

1. Dar as boas vindas aos participantes quando estes entram numa discussão.

2. Ser encorajador, empático e dar apoio na condução das discussões.

3. Projectar a sua personalidade enquanto professor e permitir que os estudantes o conheçam como pessoa num grau adequado.

4. Sugerir aos estudantes que se liguem, pelo menos, 3 vezes por semana.

5. Encorajar os estudantes a identificar os colegas quando respondem a contribuições específicas.

6. Elogiar contribuições quando for adequado.

7. Ser informal na comunicação.

8. Encorajar os estudantes mais passivos (lurkers) a participar.

9. Exprimir os seus sentimentos mas evitar o despoletar de conflitos (flaming).

10. Ser cuidadoso na utilização do humor, pelo menos até se atingir um certo grau de familiaridade.

11. Encorajar os estudantes a informar o professor por email de quaisquer tensões ou ansiedades.

Presença cognitiva

1. Focar as discussões nos aspectos-chave.

2. Colocar questões estimulantes.

3. Identificar aspectos que causem perplexidade a partir das respostas.

4. Questionar ideias e promover a reflexão.

5. Moderar as discussões sem as dirigir de uma forma ostensiva.

6. Testar as ideias teoricamente ou de forma vicariante através da aplicação.

7. Terminar as discussões quando estas não estão a progredir ou já cumpriram os seus objectivos.

8. Facilitar a consciência metacognitiva.

Para Garrison & Anderson (2003), o e-learning representa, ao tempo, uma nova “ecologia da aprendizagem”, que está a transformar as instituições educativas e as formas como conceptualizamos e experienciamos o ensino e a aprendizagem. O grande desafio para os educadores do século XXI, segundo estes autores, é conseguirem criar uma comunidade de inquirição que integre as presenças social, cognitiva e de ensino de forma a tirar o máximo partido das potencialidades oferecidas pelo e-learning que, em conjunto com as características de reflexividade e interactividade, poderá estimular e promover as aprendizagens a um nível inimaginável no passado.

A diversidade de necessidades, contextos e objectivos de formação/educação recomenda, naturalmente, que se não se adoptem perspectivas exclusivistas quanto às formas e metodologias de que se pode revestir o ensino online. Nem todas as abordagens são igualmente eficientes e adequadas face à multiplicidade de situações possíveis, nem todas as pessoas aprendem da mesma forma, e há constrangimentos de ordem institucional e pessoal que podem ter um peso importante nas opções que se fazem relativamente à oferta da formação/educação ou à forma como se quer beneficiar dela.

Parece inegável, contudo, que quando essa formação/educação visa conhecimentos que envolvem competências cognitivas complexas ou busca o desenvolvimento de competências interpessoais e procura, ao mesmo tempo, um elevado patamar de qualidade e rigor nas aprendizagens, o trabalho colaborativo constitui um elemento essencial e indispensável para que esse objectivo possa ser atingido.

Pensar o ensino online apenas como uma questão de tecnologias e de meios de comunicação mais sofisticados constitui um erro de perspectiva, pois acaba por hipotecar o enorme potencial que a sua conjugação com uma abordagem pedagógica de inspiração construtivista e sociocultural oferece à construção significativa e partilhada do conhecimento, desperdiçando esse elemento valiosíssimo cuja emergência no ensino a distância revolucionou as práticas e as metodologias até então adoptadas – o grupo de aprendizagem. Por outro lado, tal postura divorcia-se daquilo que é a tendência da actuação humana nas sociedades actuais desenvolvidas, que passa, cada vez mais, pela colaboração na realização de tarefas e na resolução de problemas; dessa experiência virtual e, no entanto, tão real, de inserção em redes de interdependência, partilha e entreajuda que a Internet, enquanto força cultural transformadora, cada vez mais dissemina, nomeadamente no seu actual estádio, a Web2.0; e do resultado do impacto desta no ensino online, o e-Learning2.0.

 

Notas

[1] Optámos por esta tradução, que nos parece adequada. “Comunidade de investigação” ou, simplesmente, “Comunidade de aprendizagem” têm sido também expressões utilizadas.
 

Referências Bibliográficas

Garrison, Randy & Anderson, Terry (2003). eLearning in the 21st Century: A Framework for Research and Practice. London & New York: RoutledgeFalmer.

Garrison, Randy; Anderson, Terry; & Archer, Walter (2000). Critical Inquiry in a text-based environment: Computer conferencing in higher education. Internet and Higher Education, 11(2), 1-14. Abstract disponível em http://www.sciencedirect.com/science [acedido em 15-12-2008].

Salmon, Gilly (2000). E-Moderating: The Key to Teaching and Learning Online. London: Kogan Page.