5.2. Definições, Características e Representações

Como é fácil perceber pelo exposto no ponto anterior, embora existam aspectos consensuais em torno da noção de PLE, regista-se uma diversidade de perspectivas e enfoques que tornam difícil chegar a uma única definição estável e que albergue toda essa diversidade. Desde as definições convencionais, passando por estratégias mais descritivas do que seria um PLE, até às representações visuais que, melhor que as palavras, procuram exprimir esse conceito complexo e multidimensional, seleccionámos um conjunto de perspectivas que nos parece representativo das várias abordagens e que, no seu todo, capta bem, em nosso entender, a essência deste constructo.

Ron Lubensky (18-12-2006) arrisca uma definição tradicional:

A Personal Learning Environment is a facility for an individual to access, aggregate, configure and manipulate digital artefacts of their ongoing learning experiences.

Para George Siemens (15-04-2007), os PLEs não constituem uma entidade, um objecto estrutural ou um programa informático no sentido de um sistema de gestão de conteúdos. Eles são, essencialmente,

(…) a collection of tools, brought together under the conceptual notion of openness, interoperability, and learner control. As such, they are comprised of two elements - the tools and the conceptual notions that drive how and why we select individual parts. PLEs are a concept-entity.

 Scott Wilson, num artigo recente (04-2008), apresenta uma visão que, em certos aspectos, se aproxima desta:

However, a PLE is not a piece of software. It is an environment where people and tools and communities and resources interact in a very loose kind of way. (18)

Na mesma linha parece-nos situar-se a proposta de Graham Attwell & Cristina Costa (11-2008), quando afirmam que

Whilst PLEs may be represented as technology, including applications and services, more important is the idea of supporting individual and group based learning in multiple contexts and of promoting learner autonomy and control (…) Personal Learning Environments offer both the framework and the technologies to integrate personal learning and working.

Terry Anderson (26-01-2007) e Stephen Downes (05-06-2006) adoptam abordagens mais descritivas. Procurando responder à questão sobre o que é um PLE, Anderson avança uma definição breve – “A PLE is a web interface into the owners’ digital environment” (26-01-2007) – para tentar, em seguida, enumerar os aspectos que, em seu entender, constituem um PLE:

  • funcionalidades de gestão de conteúdos, integrando interesses pessoais e profissionais (relativos às aprendizagens formais e informais);
  • um sistema de perfis para estabelecer conexões;
  • um espaço de trabalho simultaneamente colaborativo e individual;
  • um sistema de comunicações multi-formato;
  • todas estas funcionalidades ligadas através de uma série de feeds distribuídas e sindicadas (a series of syndicated and distributed feeds).

Esta abordagem, segundo o autor (op. cit.), valoriza e aproveita o input do aprendente; protege e valoriza a identidade; respeita a propriedade académica; é centrada na Net; suporta diversos níveis de socialização, administração e aprendizagem; suporta comunidades de inquirição (communities of inquiry) entre e dentro das disciplinas, programas, instituições e contextos individuais de aprendizagem. Através do PLE, o aprendente liga o seu ambiente ao das instituições educativas.

Stephen Downes, que não gosta particularmente de definições[1], afirma que "[t]he PLE is an approach not an application" (05-06-2006), perspectiva que constitui uma das abordagens mais relevantes na conceptualização dos PLEs. Para este autor, a questão fundamental na aprendizagem não é a motivação, mas sim o sentimento de posse (ownership) que o indivíduo experimenta quando a aprendizagem é centrada nos seus interesses e necessidades e, de certa forma, lhe pertence (05-06-2006; 18-04-2007; 25-09-2007). Essa aprendizagem imersiva (aprender fazendo) e conectada ocorre através da prática e do diálogo e interacção com os outros, em redes que são, elas mesmas, conectadas, interactivas e abertas (não integradas), segundo um modelo de “small pieces, loosely joined” em que o indivíduo constrói o seu próprio espaço de aprendizagem (25-09-2008). Downes procura captar esta dinâmica de liberdade, identidade, modelação, demonstração, prática e reflexão na ilustração que se apresenta em seguida.

Fig. 8 – e-Learning 2.0 in Development. Stephen Downes (25-09-2007: Slide 71).

Milligan et. al. (2006), em Developing a reference model to describe the personal learning environment, recolhem algumas das visualizações mais interessantes do conceito de PLE[2]. A ilustração considerada fundadora neste domínio, e que serviria de base a muitas reelaborações por parte de outros, pertence a Scott Wilson e é anterior ao projecto do CETIS, tendo sido incorporado em vários aspectos do modelo de referência e dos protótipos desenvolvidos por esta equipa. Denominado “Future VLE” (note-se a designação ainda dependente do modelo dominante na altura em termos de ambientes de aprendizagem online), procura dar uma ideia da posição relativa entre os vários elementos (agentes, serviços, ferramentas) mas permitindo, ao mesmo tempo, alguma variedade de interpretações, por não incluir um nível muito grande de detalhe.

Fig. 9 – Future VLE - The Visual Version. Scott Wilson (25-05-2005). 

O diagrama conceptual proposto por Dave Tosh, um dos criadores da plataforma Elgg[3], segue na mesma linha de Scott Wilson. Aqui o centro é o software que desenvolveu com Ben Werdmuller, que oferece um ambiente para a reflexão (através dos blogues) e de comunicação com pares (facilitada pela norma FOAF[4]). Com um repositório de conteúdos e ferramentas para gerir recursos, esta Personal Learning Landscape aproxima-se bastante do conceito nuclear de PLE.

 Fig. 10 – Elgg – a personal learning landscape. Dave Tosh (09-2005).

Outra das visualizações interessantes apresentadas por Milligan et al. (op. cit.) é a proposta por Jeremy Hiebert em 2006. Influenciado pelos modelos de Scott Wilson e James Farmer, Hiebert centra a sua atenção nos processos que o PLE suporta, em vez de o fazer na arquitectura da rede em que o aprendente participa. Os processos que compõem a caixa de ferramentas (toolkit) do aprendente são Coligir, Conectar, Reflectir e Publicar. Segundo Milligan et al. (op. cit.), este modelo é muito similar ao de uma versão inicial do modelo de referência do PLE, que se organizava em torno das noções de Coligir, Conectar e Criar.


Fig. 11 – Jeremy Hiebert (2006). Personal Learning Environment. In Milligan et al. (2006: 7).                

É visível neste diagrama de Hiebert o requisito básico de funcionalidades de comunicação biunívoca simétricas (ou menos assimétricas). A utilização de uma dimensão temporal também é considerada interessante por Milligan et al. (op. cit.), tendo sido identificada no Protótipo como um conjunto muito relevante de funções, para arquivar actividades passadas e para identificar novas actividades.

Da análise que realizaram destes e outros modelos, Milligan et al. (op. cit.) detectaram algumas características comuns que, segundo eles, estão também presentes no modelo de referência desenvolvido pela sua equipa (CETIS/Universidade de Bolton):

  • feeds para coligir recursos e outros dados (permitem recolher uma grande heterogeneidade de recursos de uma grande variedade de fontes);
  • canais para partilha e publicação (espera-se que o aprendente seja um contribuinte activo);
  • serviços para interagir com instituições (a fronteira entre indivíduos e instituições é mediada através de serviços nas fronteiras das instituições);
  • gestão pessoal da informação (a formação de conexões entre as actividades, os recursos e as pessoas é vista como um processo importante para o aprendente, talvez reflectindo nesse aspecto a influência do conectivismo);
  • a ambiguidade dos papéis do professor e do aprendente (todos os modelos são claramente centrados no aprendente e omitem referências ao papel do professor, parecendo subentender que os papéis de ambos podem ser intermutáveis e que as ferramentas podem, e talvez devam, ser as mesmas).

Scott Wilson proporia, em PLEs and the Institution (13-11-2007), um novo diagrama/modelo destinado a ultrapassar uma série de dificuldades nas relações entre o PLE e os sistemas institucionais. Para Graham Attwell (03-01-2008), o facto de Wilson propor um espaço de coordenação simples e com uma estrutura leve, separado do espaço que designa como “regulatório”, permitirá às instituições gerir os aspectos de natureza mais burocrática e administrativa e aos aprendentes usar as suas próprias ferramentas nos seus próprios ambientes.

Fig. 12 – PLEs and the institution. Scott Wilson (13-11-2007).

O último exemplo que incluímos é da autoria de Scott Leslie (18-06-08), não só porque tem dedicado ampla reflexão a este assunto (mantém, como referimos, um wiki com todas as representações visuais de PLEs), mas também porque, sendo relativamente recente, integra já novas ferramentas e conceitos entretanto surgidos.

De acordo com Leslie (op. cit.),  este exercício de recolha de diagramas de PLEs permitiu-lhe identificar três eixos segundo os quais as pessoas organizam as suas visualizações: por ferramentas, por usos e por pessoas. Foi, pois, nesse sentido que procurou captar, na visualização que propõe, estes três elementos no seu PLE, dando ainda algumas explicações adicionais:

 

Fig. 13 – My Own PLE Illustration. Scott Leslie (18-06-2008).

  • os círculos que se estendem para fora a partir do centro representam níveis diferentes de confiança/relação; as suas linhas são propositadamente tracejadas, pois trata-se de um elemento que não é fixo – as relações mudam, aprofunda-se o conhecimento de certas pessoas, etc.;
  • as setas apontando nos dois sentidos procuram exprimir o fluxo de informação e de aprendizagem, que não é de sentido único numa “«read/write» participatory web” (op. cit.).

 

Notas

[1]“I don’t do definitions” (Stephen Downes, Groups vs Networks: The Class Struggle Continues, 27-09-2006).

[2] Para consultar uma recolha exaustiva das várias representações gráficas do conceito de PLE, visitar A Collection of PLE diagrams em http://edtechpost.wikispaces.com/PLE+Diagrams, um wiki mantido por Scott Leslie.

[3] Software (plataforma) open source desenvolvido por Dave Tosh e Ben Werdmuller que permite a construção de uma rede social. Começou como um projecto de e-portfólio, evoluiu para a noção de “learning landscape” e acabou por corporizar uma visão possível do PLE enquanto um conjunto de ferramentas integradas (blogue, perfil, rss, partilha de ficheiros, permissões finas, grupos, etc.) com grande controlo por parte do utilizador. Site oficial em http://elgg.org/.

[4] FOAF é um acrónimo para Friend of a Friend. Trata-se de uma conceptualização e agregação de dados, legível por máquinas, que visa descrever pessoas, as suas actividades (o que criam e fazem) e as suas relações com outras pessoas e com objectos. Mais informação sobre este projecto em http://www.foaf-project.org/. É algo de muito relevante actualmente, como pode inferir-se por esta afirmação de Tim Berners-Lee (21-11-2007): “I express my network in a FOAF file, and that is a start of the revolution."

 

Referências Bibliográficas

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Attwell, Graham & Costa, Cristina (11-2008). Integrating personal learning and working environments. Pontydysgu - Bridge to Learning. Disponível em http://www.pontydysgu.org/research/working-and-learning/ [acedido em 15-12-2008].

Downes, Stephen (25-09-2008) Personal Learning Environments. Apresentação na conferência Brandon Hall Innovations in Learning 2008, San Jose, California. Vídeo e slides disponíveis em http://www.downes.ca/presentation/198 [acedido em 15-12-2008].

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