5.3. Que articulação entre os VLEs/LMSs e os PLEs?

Num texto recente, Systematization of Education: Room for PLEs?, George Siemens (07-12-2008) exprime a sua insatisfação pelos poucos progressos que, na sua perspectiva, têm sido feitos na transição dos ambientes fechados das instituições para os ambientes abertos e personalizados dos PLEs. Sendo estes uma ferramenta, processo e conceito centrados no conhecimento e destinados a responder às necessidades dos aprendentes, não estão integrados nas estruturas de poder da sociedade, que comandam, de facto, as decisões institucionais. É por isso que, em seu entender, faz todo o sentido que os LMSs sejam populares:

LMSs speak the language of the current power structure in education: control, accountability, manageability. (op. cit.)

A verdade é que muita da discussão em torno dos PLEs se tem desenvolvido a partir da sua comparação com os LMSs (Learning management systems) ou os VLEs (Virtual Learning Environments) usados por instituições educativas e empresas para desenvolver o ensino e a aprendizagem. Não obstante existirem algumas perspectivas que postulam, pura e simplesmente, a não existência dos LMSs/VLEs, a maior parte dos autores procura encontrar formas de articulação entre estes e os PLEs, embora com graus diferentes de relevância ou integração.

Leigh Blackall (13-11-2005), numa entrada sugestivamente intitulada Die LMS die! You too PLE!, recusa qualquer abordagem estruturada, não individual, de um qualquer ambiente de aprendizagem, inclusive uma noção “formal” de PLE:

Why do we need a PLE when we already have the Internet? The Internet is my PLE, ePortfolio, VLE whatever (...) I have a strong online ID and very extensive and personalised learning environment.

A 26 de Novembro do mesmo ano, Dave Cormier reagia no seu blogue a esta abordagem que considerava demasiado radical:

The majority of people will NEVER have an internet presence. Community environments like elgg allow for them to be noticed, and interacted with, by their peers. It's a safe, controllable environment, away from the chaos and uncertainty that is that rather long list of tools listed. The PLE and to a lesser extent the VLE/LMS provide some security, some much needed structure and most importantly guaranteed interactivity. (26-11-2005)

As exigências em termos de literacia digital e de competências técnicas que o desenvolvimento de um PLE que supra todas as necessidades de aprendizagem, baseado numa grande diversidade de ferramentas e serviços, coloca aos utilizadores, e as necessidades compreensíveis das instituições em termos burocrático-administrativos e de controlo de alguns aspectos do processo têm favorecido um maior número de abordagens que vêem uma relação complementar entre VLEs e PLEs.

Como reconhece Graham Attwell (01-06-2006), instalar, configurar e manter todo o software necessário a um PLE não é algo que esteja, pelo menos para já, ao alcance do utilizador comum. É, por isso, essencial, em seu entender, apostar na facilidade de uso e de acesso a serviços, aplicações e funcionalidades. No entanto, ao desenvolver-se o PLE como uma aplicação, este deve ser facilmente configurável para permitir o uso de aplicações e ferramentas pessoais, e não apenas as incluídas por defeito, sob pena de se estar a substituir (ou a adicionar) um ambiente fechado (o VLE) por outro.

Wilson et al. (19-09-2006), no seu artigo Personal Learning Environments: Challenging the dominant design of educational systems, resultante do trabalho desenvolvido na elaboração de um modelo de referência para os PLEs no âmbito do CETIS, mostram partilhar estas preocupações. Tendo optado por uma solução integrada (software servidor - PLEW + software cliente – PLEX), procuram dar-lhe uma orientação muito personalizada e aberta, por contraste com o VLE institucional, e admitem outros cenários não integrados, em que os utilizadores recorrem a uma série de ferramentas e serviços independentes:

we envisage situations where the PLE is not a single piece of software, but instead the collection of tools used by a user to meet their needs as part of their personal working and learning routine. So, the characteristics of the PLE design may be achieved using a combination of existing devices (laptops, mobile phones, portable media devices), applications (newsreaders, instant messaging clients, browsers, calendars) and services (social bookmark services, weblogs, wikis) within what may be thought of as the practice of personal learning using technology. (op. cit.: 9)

Em termos das características desejáveis num PLE, estes autores avançam as seguintes:

  • enfoque na coordenação das conexões entre utilizadores e serviços oferecidos por organizações e outros indivíduos, possibilitando uma grande diversidade de contextos que suportem os objectivos do aprendente – centrado nas competências e integrando experiências de vários domínios (educação, trabalho, lazer);
  • relações simétricas – qualquer utilizador deve poder tanto usar como publicar recursos através de um serviço; os utilizadores devem poder organizar os seus recursos, gerir contextos e adoptar ferramentas que se adeqúem às suas necessidades;
  • contexto individualizado – já não será possível proporcionar uma experiência homogénea de um contexto fora do âmbito de sistemas fechados, dado que os utilizadores podem reorganizar a informação no contexto;
  • boa interoperabilidade – da perspectiva do PLE, a capacidade de estabelecer conexões é crucial, pelo que o suporte a diferentes standards é um aspecto fundamental;
  • uma cultura de conteúdos abertos e de remistura – ao contrário do VLE, o PLE orienta-se para a partilha de recursos, na busca de uma construção partilhada do conhecimento, não para a sua protecção ou para restrições ao seu acesso; a utilização de licenças creative commons permite a edição, modificação e republicação de recursos;
  • âmbito pessoal e global – enquanto que o VLE opera no âmbito institucional, o PLE opera ao nível pessoal, ao coordenar serviços e informação directamente relacionados com o utilizador; contudo, porque o PLE lhe permite conectar-se a redes sociais, bases de dados, contextos profissionais e contextos de aprendizagem, este pode ser também considerado como de âmbito global.

Scott Leslie (21-11-2005), em ELGG vs. Moodle - defusing a false dichotomy, perfilha a perspectiva de que, na altura em que escreve, a melhor estratégia passa por encontrar boas formas de coexistência e integração, para além de meros apontadores ou soluções de autenticação partilhadas, entre os ambientes institucionais e os ambientes personalizados.

Terry Anderson (28-11-2005) reage a esta posição de Scott Leslie (curiosamente numa entrada que inaugura o seu blogue Virtual Canuck) com Educational Social Overlay Networks, em que defende que o mais importante é identificar quais os componentes da vida do utilizador que devem estar situados no seu espaço individual na web e quais os que devem desenvolver-se no espaço institucional formal. Embora veja dificuldades na interacção entre os dois domínios, Anderson acredita que o software social educativo pode funcionar como uma espécie de rede sobreposta (overlay network) que potencie e expanda a rede institucional formal, que consistirá nos serviços de apoio ao estudante, biblioteca, propinas, matrículas e outros serviços.

Para Attwell (06-12-2005), como refere em Bridging the divide between VLEs and the Personal Learning Environment, esta reflexão de Anderson dirige-se precisamente a uma das suas maiores preocupações neste domínio: como ultrapassar o hiato entre o VLE controlado institucionalmente e o PLE controlado pelo estudante? Como persuadir as instituições a abrir mão desse controlo? Como levar os estudantes a tomarem o controlo da sua própria aprendizagem? Para ele, a noção avançada por Anderson de uma rede sobreposta pode muito bem ser a ponte que faltava.

Em duas produções posteriores – PLE’s versus LMS: Are PLEs ready for Prime time? (09-01-2006) e Personalized learning systems and you (26-01-2007) – Terry Anderson aprofunda a análise destas questões, centrando-se nas vantagens e desvantagens comparativas quer de LMSs/VLEs, quer de PLEs. Segundo este autor (26-01-2007), os LMSs são desenhados, construídos e operados por instituições de ensino formal, o que resulta nas seguintes características:

  • desenhados para ir ao encontro das necessidades dos professores
  • baseados no modelo de disseminação
  • as contribuições são propriedade da instituição
  • o estudante é obrigado a aprender um sistema novo em cada instituição
  • são desenhados para um contexto de aprendizagem de lógica “push” em vez de “pull”
  • operacionalizam uma visão da aprendizagem centrada no curso/disciplina
  • a interoperabilidade com outros produtos ou sistemas operativos é difícil
  • são desenhados para proteger a propriedade intelectual, não para proporcionar o acesso livre
  • têm um registo de inovação bastante pobre

Ainda assim, apesar destes problemas e por muito atraente que seja a noção de um ambiente de aprendizagem ao longo da vida centrado no estudante e sua propriedade perene, Anderson considera que não existem para já condições para concretizar essa visão, pois os LMSs oferecem, por enquanto, algumas vantagens importantes: são desenhados de forma eficiente para fins específicos; têm já um bom nível de maturação; são ambientes seguros, quer em temos tecnológicos, quer em termos das interacções; são fáceis de utilizar; e o suporte é centralizado (09-01-2006; 26-03-2007).

No entanto, o futuro dos PLEs afigura-se-lhe mais seguro do que o de um qualquer LMS monolítico. Na sua opinião, só sobreviverão os LMSs que se abram a melhorias baseadas em standards, a pedidos de serviços externos e à forte dinâmica de evolução no sentido de aplicações educativas realmente centradas nos aprendentes (09-01-2006). Desse ponto de vista, os PLEs apresentam muitas vantagens: identidade; persistência; personalização e controlo; posse (ownership); presença social; capacidade e velocidade de inovação; e conectividade aberta (09-01-2006; 26-03-2007).

Martin Weller (08-11-2007) apresenta, em The VLE/LMS is dead, uma visão que se aproxima, em vários aspectos, da de Anderson, com a curiosidade de ser claramente perceptível uma preocupação em termos da sua acção como professor. Par este autor, as áreas mais problemáticas na utilização de um conjunto disperso de ferramentas em vez de um sistema institucional integrado (LMS/VLE) são sobretudo cinco:

  • a autenticação, dado o elevado número de estudantes envolvidos em muitos casos;
  • a conveniência, para professores e estudantes, de ter todas as ferramentas e informações reunidas num ambiente único;
  • o apoio técnico centralizado;
  • a fiabilidade em termos do sistema, dado o maior controlo da instituição;
  • a maior facilidade na monitorização do trabalho desenvolvido pelos estudantes.

Contudo, vários destes aspectos são relativos ou podem ser ultrapassados, pelo menos parcialmente. Além disso, os PLEs apresentam, por seu lado, um conjunto muito forte de vantagens:

  • as ferramentas, por serem independentes, são de melhor qualidade, dado o contínuo desenvolvimento e actualização;
  • têm um visual mais moderno e apelativo;
  • agregam as ferramentas apropriadas a cada situação;
  • o custo é mais reduzido (grátis?);
  • evitam um efeito de sedimentação e de estagnação, frequente em sistemas institucionais, que acabam por absorver as práticas organizacionais e tender à normalização e à resistência à mudança;
  • favorecem a desintermediação.

É por estas razões que Weller (op. cit.) considera que a mudança para sistemas externos de terceiros, ligados de forma fluida e flexível (loosely coupled), disponíveis gratuitamente na Web, será inevitável, embora não anteveja uma transição repentina, antes uma transição faseada.

Várias das preocupações referidas anteriormente são, de certa forma, partilhadas por Stephen Brown (09-07-2008). Partindo de uma análise comparativa entre os VLEs institucionais e as ferramentas e serviços disponíveis na designada Web 2.0, sintetizada no quadro que apresentamos em seguida, este autor afirma que, embora os PLEs institucionais possam dar maior controlo e poder aos utilizadores do que os VLEs tradicionais, eles são, ainda assim, institucionais, e podem por isso não aproveitar adequadamente o potencial da Web 2.0.

VLEs
Web 2.0 
Solução de gestão numa lógica top-down Soluções individuais numa lógica bottom-up
Caras (mesmo se open source) Grátis (maioritariamente)
É necessária uma infra-estrutura empresarial Baseada na web
Requerem uma aquisição generalizada Adopção possível por indivíduos
É necessária formação Fácil de usar
Interoperabilidade difícil, requerendo acordos A interoperabilidade baseia-se em standards
O acesso controlado torna difícil chegar aos materiais e modificá-los O acesso livre permite a modificação contínua dos materiais mesmo se não pertencem ao utilizador
Mercado maduro, escolha reduzida Crescimento exponencial, grande variedade de escolha
Confirma as relações de poder tradicionais Social, colaborativa, dá poder aos indivíduos

 Quadro 4 - Comparação das características dos VLEs intitucionais e da Web 2.0. Stephen Brown (09-07-2008).

Também para Brown (op. cit.) é ainda cedo para abandonar os VLEs, mas o autor considera que à medida que a utilização destes novos serviços e ferramentas se for disseminando, ou, na formulação de Blackall (13-11-2005), à medida que a literacia digital se for desenvolvendo nas organizações e indivíduos, será cada vez mais difícil justificar os custos dos VLEs para as instituições e as restrições que impõem à liberdade e ao controlo dos utilizadores.

 

Referências Bibliográficas

Anderson, Terry (26-01-2007). Personalized learning Systems and you. PLE Conference. Universidade de Manitoba. Slides disponíveis em http://www.umanitoba.ca/learning_technologies/plesymposium/PersonalizedlearningSystemsandyou.ppt [acedido em 15-12-2008] e vídeo disponível em http://media.cc.umanitoba.ca:8080/ramgen/academic_support/ltc/ple/keynote.rm [acedido em 15-12-2008].

Anderson, Terry (09-01-2006). PLE’s versus LMS: Are PLEs ready for Prime time? Virtual Canuck. Disponível em http://terrya.edublogs.org/2006/01/09/ples-versus-lms-are-ples-ready-for-prime-time/ [acedido em 15-12-2008].

Anderson, Terry (28-11-2005). Educational Social Overlay Networks. Virtual Canuck. Disponível em http://terrya.edublogs.org/2005/11/28/hello-world/ [acedido em 15-12-2008].

Attwell, Graham (01-06-2006). Personal Learning Environments. The Wales-Wide Web. Disponível em http://www.knownet.com/writing/weblogs/Graham_Attwell/entries/6521819364 [acedido em 15-12-2008].

Attwell, Graham (06-12-2005). Bridging the divide between VLEs and the Personal Learning Environment. The Wales-Wide Web. Disponível em http://www.knownet.com/writing/weblogs/Graham_Attwell/weblog.archives/2005/12 [acedido em 15-12-2008].

Blackall, Leigh (13-11-2005). Die LMS die! You too PLE! Learn Online. Disponível em http://teachandlearnonline.blogspot.com/2005/11/die-lms-die-you-too-ple.html [acedido em 15-12-2008].

Brown, Stephen (09-07-2008). From VLEs to learning webs: the implications of Web 2.0 for learning and teaching. Interactive Learning Environments. Informação e abstract disponíveis em http://dx.doi.org/10.1080/10494820802158983 [acedido em 15-12-2008].

Cormier, Dave (26-11-2005). What is this whole school thing about anyway? Dave’s Educational Blogue. Disponível em http://davecormier.com/edblog/2006/03/01/what-is-this-whole-school-thing-about-anyway/ [acedido em 15-12-2008].

Leslie, Scott (21-11-2005). ELGG vs. Moodle - defusing a false dichotomy. EdTechPost. Disponível em http://www.edtechpost.ca/wordpress/2005/11/21/ELGG-vs.-Moodle---defusing-a-false-dichotomy [acedido em 15-12-2008].

Siemens, George (07-12-2008). Systematization of Education: Room for PLEs? Learning Technologies Centre Research Blog. Universidade de Manitoba. Disponível em http://ltc.umanitoba.ca/wordpress/2008/12/systematization-of-education-room-for-ples/ [acedido em 15-12-2008].

Weller, Martin (08-11-2007). The VLE/LMS is dead. The Ed Techie. Disponível em http://nogoodreason.typepad.co.uk/no_good_reason/2007/11/the-vlelms-is-d.html [acedido em 15-12-2008].

Wilson, Scott; Beauvoir, Phil; Milligan, Colin; Sharples, Paul; Johnson, Mark; & Liber, Oleg (19-09-2006). Personal Learning Environments: Challenging the dominant design of educational systems. Artigo apresentado na Joint International Workshop on Professional Learning, Competence Development and Knowledge Management (LOKMOL and L3NCD), Heraklion, Outubro 2006 Disponível em http://hdl.handle.net/1820/727 [acedido em 15-12-2008].