A Parte 1, A Web 2.0, encontra-se dividida em 2 capítulos.
No Capítulo 1, O Conceito de Web 2.0, procuramos caracterizar esta noção, determinando a sua origem e conteúdo de significação e descrevendo os apectos maiores da cultura participatória imanente. Traçamos, também, a sua genealogia, ligando o desenvolvimento tecnológico às dinâmicas culturais e aos processos de transformação social que o favorecem, potenciam e moldam, bem como identificamos aspectos relativos à comunicação e à partilha de conhecimento já presentes anteriormente na Internet e, depois, na Web.
No Capítulo 2, O Conhecimento, o Individual e o Colectivo na Web 2.0, exploramos a noção de confluência entre vários aspectos da posmodernidade e da cultura digital, bem como o efeito acelerado e ampliador da Web 2.0, para reflectir sobre a problematização da noção de conhecimento, da sua finalidade, validade e produção. Em seguida, procuramos clarificar a relação entre o individual e o colectivo na Web 2.0, bem como vários conceitos, por vezes mal representados ou confundidos, como sejam os de Wisdom of Crowds e Inteligência Colectiva.
Neste Capítulo 1, denominado O Conceito de Web 2.0, procuramos caracterizar esta noção, determinando a sua origem e conteúdo de significação e descrevendo os apectos maiores da cultura participatória imanente. Traçamos, também, a sua genealogia, ligando o desenvolvimento tecnológico às dinâmicas culturais e aos processos de transformação social que o favorecem, potenciam e moldam, bem como identificamos aspectos relativos à comunicação e à partilha de conhecimento já presentes anteriormente na Internet e, depois, na Web.
Este Capítulo sundivide-se em 3 pontos:
1.2. A Cultura Participatória e a Read/Write Web
1.3. A Web 2.0 e a Cultura da Internet

The first glimmerings of Web 2.0 are beginning to appear, and we are just starting to see how that embryo might develop (…) The Web will be understood not as screenfuls of text and graphics but as a transport mechanism, the ether through which interactivity happens. It will still appear on your computer screen, transformed by video and other dynamic media made possible by the speedy connection technologies now coming down the pike. The Web will also appear, in different guises, on your TV set (interactive content woven seamlessly into programming and commercials), your car dashboard (maps, Yellow Pages, and other traveler info), your cell phone (news, stock quotes, flight updates), hand-held game machines (linking players with competitors over the Net), and maybe even your microwave (automatically finding cooking times for products).
Era assim que, em 1999, num artigo publicado na Print Magazine, Darcy DiNucci introduzia o termo “Web 2.0” para referir as mudanças que, segundo ela, estavam a tornar a web mais interactiva, mais interconectada e mais presente no nosso quotidiano [1]. Era uma visão ainda muito difusa e exploratória do que aí viria, mas seria suficientemente distante para que se lhe recuse o mérito de ter inventado a expressão?
Seja com for, não lhe coube a glória de ficar na História como o seu criador. Essa ficará sempre indelevelmente ligada a Dale Dougherty, vice-presidente da O'Reilly Media, Inc., uma reputada editora de livros na área da computação, através da organização de uma conferência com essa designação. Diz Tim O’Reilly, reconhecido paladino dos standards abertos (open standards), fundador e director executivo (CEO) da O'Reilly Media, Inc., num artigo de 2005, intitulado What Is Web 2.0: Design Patterns and Business Models for the Next Generation of Software:
The concept of "Web 2.0" began with a conference brainstorming session between O'Reilly and MediaLive International. Dale Dougherty, web pioneer and O'Reilly VP, noted that far from having "crashed", the web was more important than ever, with exciting new applications and sites popping up with surprising regularity. What's more, the companies that had survived the collapse seemed to have some things in common. Could it be that the dot-com collapse marked some kind of turning point for the web, such that a call to action such as "Web 2.0" might make sense? We agreed that it did, and so the Web 2.0 Conference was born. (O’Reilly, 30-09-2005: 1)
Nesse mesmo artigo, O’Reilly procura avançar uma explicitação e clarificação do que entende pelo conceito de “Web 2.0”, numa altura em que, em seu entender, havia grande instabilidade e confusão em volta do mesmo. Reportando-se à já mencionada sessão de brainstorming, apresenta um quadro em que se procurava estabelecer as diferenças entre a “velha web” e a “nova web”:
| Web 1.0 | Web 2.0 |
|
DoubleClick Ofoto Akamai mp3.com Britannica Online personal websites evite domain name speculation page views screen scraping publishing content management systems directories (taxonomy) stickiness |
Google AdSense Flickr BitTorrent Napster Wikipedia blogging upcoming.org and EVDB search engine optimization cost per click web services participation wikis tagging ("folksonomy") syndication |
Quadro 1 - What Is Web 2.0. Tim O’Reilly (30-09-2005).
A Web 2.0 poderia, então, ser entendida como um deslocamento dos aspectos mais técnicos – o software que a suporta – para uma experiência de utilização enquanto plataforma através da qual são distribuídos serviços, orientados para o utilizador, em permanente transformação (uma espécie de beta perpétuo), com características novas que se encontram evidenciadas na representação gráfica que se apresenta abaixo e que incluía alguns dos elementos que se viriam a tornar verdadeiras pedras angulares neste conceito: maior controlo por parte do utilizador, maior personalização dos conteúdos e serviços, a participação, a inteligência colectiva, a fragmentaridade/atomização/modularidade da informação, ligada de modo fluído e recombinável, granularidade, etc.

Fig. 1 - What Is Web 2.0. Tim O’Reilly (30-09-2005).
Nessa transição, o factor essencial de sucesso parece ser a capacidade de mobilizar aquilo que O’Reilly designa como a inteligência colectiva, potenciada pelo poder da rede (O’Reilly, op. cit.). Esta desenvolve-se de uma forma análoga à do cérebro, organicamente, tornando-se mais rica e complexa à medida que novas (hiper)ligações vão criando conexões com os novos sites e os novos conteúdos contribuídos por uma multidão de utilizadores.
[1] O texto foi consultado online no site AllBusiness http://www.allbusiness.com/periodicals/article/383501-1.html [5 de Julho de 2006], mas entretanto desapareceu. Há, contudo, outras referências que atestam esta circunstância: http://thomashawk.com/2006/05/tim-oreilly-sends-a-cease-and-desist-to-a-... [acedido em 15-12-2008] e http://digitallife.germanblogs.de/archive/2006/06/25/z79hltvluga9.htm [acedido em 15-12-2008]. Um contacto por e-mail com Darcy DiNucci permitiu obter uma cópia do artigo referido em PDF. Segundo a autora, este será disponibilizado online brevemente. Update [05-06-2010]: o artigo encontra-se actualmente disponível em http://www.cdinucci.com/Darcy2/articles/Print/Printarticle7.html.
DiNucci, Darcy (1999). Fragmented Future. Print Magazine. Disponível em http://www.allbusiness.com/periodicals/article/383501-1.html [acedido em 09-11-2006].
O’Reilly, Tim (30-09-2005). What Is Web 2.0: Design Patterns and Business Models for the Next Generation of Software. O’Reilly. Disponível em http://www.oreillynet.com/pub/a/oreilly/tim/news/2005/09/30/what-is-web-... [acedido em 15-12-2008].
Este irromper das vozes individuais, múltiplas, na esfera pública amplificada e distribuída que é a web provocou ondas de choque que abalaram a própria fundação dos média tradicionais, confrontados com a perda do poder que detinham sobre a produção e hierarquização da informação consumida pelo grande público. Nas palavras de O’Reilly,
The world of Web 2.0 is also the world of what Dan Gillmor calls "we, the media," a world in which "the former audience", not a few people in a back room, decides what's important. (30-09-2005: 3)
Os blogues, os wikis, os podcasts, o Youtube, sites como o Digg, entre tantos outros serviços, são os emissores de onde brotam visões de base, amadoras (em mais do que um sentido), empenhadas em partilhar visões do mundo e do quotidiano fora dos poderes editoriais instituídos, tecendo a teia plural a partir de uma grande diversidade de pontos de vista. Falando ainda deste público que tomou nas suas mãos o poder de produzir e distribuir informação, escreve Jay Rosen numa espécie de manifesto intitulado The people formerly known as the audience (Rosen, 27-07-2006):
The people formerly known as the audience wish to inform media people of our existence, and of a shift in power that goes with the platform shift you’ve all heard about.
Como não sorrir perante isto? A Web 2.0 também corporiza, em muitas das suas formas de expressão, um inegável sentido de humor e de prazer na comunicação. Como escrevia Christopher Locke já em 1999, em The Cluetrain Manifesto: The End of Business as Usual, “Irony is perhaps the most common mode of Internet communications” (Cap. 7). Mas quem são estas pessoas, ainda segundo Rosen? São
[t]he writing readers. The viewers who picked up a camera. The formerly atomized listeners who with modest effort can connect with each other and gain the means to speak— to the world, as it were. (Rosen, 27-07-2006)
Não se pense, contudo, que estamos apenas perante um cenário caótico ou anárquico de informação desconexa, sem valor, para uso doméstico ou divertimento dos amigos mais próximos. Esse tipo de produção por parte dos utilizadores existe, e em número substancial, mas as coisas não se resumem a isso. Já em 2003, no seu relatório para o Media Center do American Press Institute, intitulado We Media: How Audiences are Shaping the Future of News and Information, Shayne Bowman e Chris Willis definiam assim este jornalismo feito por cidadãos comuns:
Participatory journalism: The act of a citizen, or group of citizens, playing an active role in the process of collecting, reporting, analyzing and disseminating news and information. The intent of this participation is to provide independent, reliable, accurate, wide-ranging and relevant information that a democracy requires. (Bowman & Willis, 2003: 10)
Objectivos nobres e elevados, como pode ver-se, e que têm vindo a ser perseguidos com persistência e de forma cada vez mais disseminada. A voz dos cidadãos no imenso espaço público que é a web pode ser encarada como um dispositivo de reforço da própria democracia e de expressão de uma cidadania completa:
Once they were your printing presses; now that humble device, the blog, has given the press to us. That’s why blogs have been called little First Amendment machines [1]. They extend freedom of the press to more actors. (Rosen, 27-06-2007)
Contudo, a participação das pessoas, dos não-profissionais, não se resume à questão das notícias. A verdade é que rapidamente as empresas e serviços perceberam que os utilizadores adicionam valor, e essa é uma das lições que O’Reilly retira do fenómeno da Web 2.0 (O’Reilly, 30-09-2005). Mas nem todos o fazem voluntária e deliberadamente. Essa arquitectura de participação tem que ser planeada, organizada e suportada pelas próprias formas como os utilizadores usam os serviços. Sabendo-se que apenas uma pequena percentagem de utilizadores tem a persistência e vontade necessárias para adicionar de forma explícita valor às aplicações e serviços que utiliza, cabe às empresas Web 2.0
set inclusive defaults for aggregating user data and building value as a side-effect of ordinary use of the application. (op. cit.)
Os blogues, como também a Wikipédia (e outros serviços, diríamos) mobilizam essa inteligência colectiva como uma espécie de filtro, configurando aquilo que James Surowiecki designou como the wisdom of crowds (referido por O’Reilly, 30-09-2005), conceito que analisaremos com mais detalhe mais à frente. Através destes dispositivos de publicação e de comunicação (blogues, wikis, user-powered sites, como o Digg), do bookmarking social (Delicious, Diigo, etc.), da partilha de imagens e vídeos (Flickr, Youtube), assistimos a um fluxo ininterrupto de informação que circula na rede, de pessoas para pessoas, de qualidade desigual, mas que, dada a dimensão do fenómeno e dos números envolvidos, resulta num ganho de conhecimento disponível e partilhável por todos.
Num relatório produzido no âmbito do JISC (Joint Information Systems Committee, Reino Unido), datado de Fevereiro de 2007 e intitulado What is Web 2.0? Ideas, technologies and implications for education, Paul Anderson identifica seis grandes ideias que suportam o conceito de Web 2.0, e que não se afastam muito da visão avançada por O’Reilly:
1. A produção individual e os conteúdos produzidos pelos utilizadores (Individual production and User Generated Content)
Esta ideia agrega, por um lado, a noção de publicação pessoal e auto-expressão, potenciadas pela facilidade de acesso oferecida pelas novas tecnologias aliadas à noção de “Eu também consigo fazer isso” (em termos sociológicos e culturais, uma espécie de neo-punk) e, por outro, uma faceta mais ligada à cidadania e à intervenção na sociedade, que já referimos, na forma do citizen journalism.
2. A mobilização do poder da multidão (Harness the power of the crowd)
Para Paul Anderson (2007), a questão aqui é tentar determinar de que forma interpretamos termos como “inteligência” na expressão “inteligência colectiva” e de que modo isso se relaciona com a noção de “informação”. O próprio conceito de Wisdom of Crowds (sabedoria das multidões) avançado por Surowiecki, na obra com o mesmo nome, é também ele instável e passível de diversas interpretações, algumas delas erróneas (cf. Anderson, 2007). Esta noção de “sabedoria das multidões” não se refere a uma massa anónima agindo concertadamente e com objectivos comuns, mas antes a indivíduos desenvolvendo as suas acções de forma independente que, no seu conjunto, produzem resultados superiores, em determinadas circunstâncias, aos que um único individuo poderia obter. No mesmo sentido devem ser vistas as folksonomies, neologismo derivado de taxonomy e que designa, na definição de Thomas Vander Wal,
the result of personal free tagging of information and objects (anything with a URL) for one's own retrieval. The tagging is done in a social environment (shared and open to others). The act of tagging is done by the person consuming the information. (citado por Anderson, 2007: 17)
Trata-se de uma acção individual, não de um esforço colaborativo, destinada a facilitar a organização e processamento de informação por parte de um utilizador, nos seus próprios termos (i.e. usando o seu próprio vocabulário). Contudo, pelo facto de ser partilhada no espaço público, permite que grupos de utilizadores com um vocabulário similar funcionem como uma espécie de “filtros humanos” (Anderson, 2007). Um outro aspecto importante no que toca à folksonomy é que as tags (etiquetas ou palavras-chave) estão constantemente a ser geradas, pelo que se torna possível detectar tendências de interesse emergentes. A possibilidade de identificar informação contextual quando as tags são agregadas deriva do elevado número de pessoas que as produzem e utilizam (Owen et al., 2006; referidos por Anderson, 2007), o que configura um cenário típico da “sabedoria das multidões” (wisdom of crowds) (Anderson, 2007).
3. Dados em grande escala (Data on an epic scale)
Um dos factores basilares na Web 2.0 é a capacidade das empresas e serviços coligirem e gerirem a imensa massa de dados disponíveis, que cresce incrementalmente, transformando-a num fluxo contínuo que pode ser, depois, utilizado de modo eficiente pelas pessoas. Já no seu artigo fundador de 2005, O’Reilly afirma que o valor do software “is proportional to the scale and dynamism of the data it helps to manage” (30-09-2005: 1). A maior parte destes dados são uma espécie de efeito secundário resultante da utilização normal dos vários serviços disponíveis na Internet (Google, Amazon, eBay, etc.), que recolhem e agregam os hábitos e perfis de utilizadores para depois construírem uma arquitectura de dados que permita desenvolver serviços mais personalizados e optimizar outros aspectos, como a publicidade, por exemplo (Anderson, 2007).
Característico destes serviços é o facto de aprenderem sempre que são usados e serem tanto melhores quanto mais pessoas os utilizarem: este é um dos cenários em que a já referida “sabedoria das multidões” (wisdom of crowds) parece emergir (O’Reilly, 30-09-2005; Anderson, 2007). Se, por um lado, este trabalho sobre os dados torna a vida de todos mais fácil no ciberespaço, ele levanta, por outro, preocupações quanto a questões de privacidade, propriedade da informação recolhida e usos potencialmente perversos para que pode ser utilizada (Anderson, 2007). Ainda, dada a relevância destes dados para o desenvolvimento e sucesso das empresas Web 2.0, há uma tendência natural para estas usarem standards proprietários que tornam difícil ou mesmo impossível aos utilizadores ou aos programadores migrar estes dados para outros serviços. Como refere O’Reilly,
the race is on to own certain classes of core data: location, identity, calendaring of public events, product identifiers and namespaces. (30-09-2005: 3)
Contudo, parece haver actualmente uma tendência para a utilização de APIs (Application Programming Interfaces) abertas e para soluções que permitem a interoperabilidade e a exportação/importação de dados entre serviços. Um dos elementos emergentes de maior importância é a OpenId, que permite às pessoas usar o mesmo nome de utilizador e a mesma palavra-passe em todos os serviços que suportem esta norma.
4. Arquitectura de participação (Architecture of Participation)
Duas ideias fundamentais neste conceito são, naturalmente, a colaboração entre as pessoas na Web e os conteúdos produzidos pelos utilizadores. Mas tão importante como isso é o facto de os serviços serem desenhados para facilitar e potenciar a utilização em massa pelas pessoas. Isto é, a sua arquitectura é pensada para poder aproveitar ao máximo o input dos utilizadores e tornam-se melhores à medida que essa utilização aumenta, sobretudo através da facilidade de uso e da disponibilização de ferramentas muito funcionais, baixando consideravelmente as barreiras que podem obstar à utilização da tecnologia. A busca do Google ou o BitTorrent (protocolo de partilha de ficheiros peer-to-peer) são exemplos claros de serviços deste tipo (Anderson, 2007).
5. Efeitos da rede, leis de potência e a “Cauda Longa” (Network effects, power laws and the Long Tail)
O conceito de “efeito de rede” (network effect) aplica-se mais comummente a redes de telecomunicações (embora não exclusivamente), e designa o aumento de valor de um serviço em que existe alguma forma de interacção com outros à medida que mais pessoas o utilizam (Anderson, 2007). Aplicado à realidade da Web, torna-se óbvio que o valor de muitos serviços, nomeadamente daqueles que assentam em tecnologias de software social, como o MySpace, o Facebook, o Delicious ou o Twitter, por exemplo, está intimamente ligado ao número de utilizadores que têm. À medida que este “efeito de rede” aumenta e as pessoas percepcionam uma maior popularidade num determinado serviço, é frequente que este exiba uma crescimento exponencial e ganhe muito rapidamente preponderância em termos do mercado (Anderson, 2007).
Este “efeito de rede” presente na Internet, suportada numa rede física de telecomunicações, é ampliado e potenciado pela natureza orgânica e relacional (hipertextual) da Web. O conteúdo contribuído pelos utilizadores, as novas ligações constantemente criadas ou o recurso a serviços que agregam dados intensifica e aprofunda este mesmo efeito. O aperfeiçoamento constante dos serviços e aplicações Web 2.0 é alimentado por este efeito de rede, integrando a já referida arquitectura de participação (Anderson, 2007).
Contudo, o “efeito de rede” não tem uma distribuição equitativa e regular por todos os utilizadores, ou seja, o “valor” adicionado varia de pessoa para pessoa, consoante o uso que dele é feito. Algumas páginas são mais relevantes do que outras para nós, e daí estarem nos nossos “favoritos”, e nem todos os nossos contactos de email têm a mesma relevância, por exemplo. Este valor relativo é, assim, ditado por uma distribuição baseada numa “lei de potência” (power law). Essa distribuição é representada por uma linha continuamente decrescente e é caracterizada por
a very small number of very high-yield events (like the number of words that have an enormously high probability of appearing in a randomly chosen sentence, like 'the' or 'to') and a very large number of events that have a very low probability of appearing (like the probability that the word 'probability' or 'blogosphere' will appear in a randomly chosen sentence) (Benkler, 2006, citado por Anderson, 2007: 22).
Este tipo de distribuição evidencia uma “cauda” muito longa, dado que a amplitude de uma “lei de potência”, à medida que se estende em direcção ao infinito, se aproxima do valor zero mas nunca chega a atingi-lo (Anderson, 2007).
A expressão “Long Tail" [2] foi primeiro usada por Chris Anderson, da revista online Wired, no artigo assim intitulado, e que tinha como lead
Forget squeezing millions from a few megahits at the top of the charts. The future of entertainment is in the millions of niche markets at the shallow end of the bitstream. (Chris Anderson, 2004)
Nele, Chris Anderson avança a ideia de que os produtos com pouca procura ou com volumes de venda baixos (que se encontram na “long tail”) podem, em conjunto, chegar a uma quota de mercado que iguala ou supera a de um número restrito de produtos que sejam campeões de vendas, desde que a rede de distribuição tenha a dimensão suficiente e que não haja, também, barreiras artificiais que impeçam as pessoas de adquirir os produtos no extremo mais distante da “cauda”.

The Long Tail. Paul Anderson (2007: 23).
Segundo Chris Anderson (2007), estamos a evoluir para uma cultura e uma economia em que os muitos milhões de pessoas que constituem estes nichos na “cauda” têm, de facto, importância. Um dos elementos que alimenta os nichos especializados, a personalização e a fragmentação é, precisamente, a facilidade com que as novas ferramentas e tecnologias permitem a passagem de uma massa passiva de consumidores a uma multidão activa de indivíduos produtores de conteúdos.
6. Abertura (Openness)
Esta é a última das seis grandes ideias que, para Paul Anderson (2007), suportam o conceito de Web 2.0. Segundo o autor, apesar das muitas leis e regulamentações em torno do controlo, acesso e direitos relativos aos conteúdos digitais, existe na Web uma longa tradição de trabalhar de forma aberta, que se manifesta, também, como uma força poderosa na Web2.0: os open standards, o software open source, a utilização livre de dados e a sua reutilização, o trabalhar num espírito de inovação aberto à participação de outros, tudo isto tem sido importante no seu desenvolvimento.
Naturalmente que essa tradição levanta vários problemas para os quais é necessário encontrar respostas. Há uma quantidade incomensurável de informação armazenada na Web, mas dadas as diferentes formas como as empresas e serviços procedem à sua recolha e agregação, é necessário promover standards abertos que permitam, por um lado, a sua transferência (data exchange) e, por outro, a sua consulta e utilização de modo simples e eficaz.
Além disso, as questões do copyright e da propriedade intelectual têm que ser devidamente ponderadas neste contexto de abertura e de partilha de conhecimento e de informação. Se muitos utilizadores distribuídos ao “longo da cauda”, por diversas razões e motivações, prescindem com facilidade de parte ou da totalidade desses direitos, já noutras situações, quando estes representam a base de uma actividade ou de uma reputação profissional (escritores, músicos, académicos), esta problemática coloca-se com particular acuidade.
A tendência parece ser, apesar de tudo, para uma abertura e partilha cada vez maior de conhecimento científico e de informação. São casos paradigmáticos as várias iniciativas ligadas aos conteúdos educacionais abertos (open content), objectos de aprendizagem (learning objects), recursos educacionais abertos (open educational resources) e cursos abertos (open courseware); as revistas cientificas de acesso livre [3] e o Public Knowledge Project [4], que disponibiliza, entre outros serviços, software de suporte à publicação de revistas científicas e académicas ou à realização de conferências de acesso livre; ou o projecto Creative Commons [5],cujas licenças permitem uma grande amplitude e flexibilidade relativamente às condições de uso que um autor pode definir relativamente àquilo que produziu, desde o copyright total – todos os direitos reservados – até ao domínio público – sem quaisquer restrições.
[1]Texto da 1ª Emenda à Constituição dos Estados Unidos da América: Congress shall make no law respecting an establishment of religion, or prohibiting the free exercise thereof; or abridging the freedom of speech, or of the press; or the right of the people peaceably to assemble, and to petition the Government for a redress of grievances.
[2]Traduzido por “A Cauda Longa”, aquando da publicação em Português (2007) da obra que Chris Anderson veio a escrever mais tarde com o mesmo título do artigo (2006).
[3]O Directory of Open Access Journals contava, no início de Dezembro de 2008, com 3766 publicações listadas, qualificadas como “free, full text, quality controlled scientific and scholarly journals”, e uns impressionantes 239755 artigos, distribuídos por 17 áreas científicas. http://www.doaj.org/, acedido em 015-12-2008.
[4]Da página do projecto: “The Public Knowledge Project is a research and development initiative directed toward improving the scholarly and public quality of academic research through the development of innovative online publishing and knowledge-sharing environments”. http://pkp.sfu.ca/, acedido em 15-12-2008. “Share, Remix, Reuse – Legally” é o lema desta organização sem fins lucrativos, cujo site pode ser encontrado em http://creativecommons.org/.
[5]“Share, Remix, Reuse – Legally” é o lema desta organização sem fins lucrativos, cujo site pode ser encontrado em http://creativecommons.org/.
Anderson, Chris (2007). A Cauda Longa. Lisboa: Actual Editora. [Edição original em Inglês de 2006, pela Hyperion, EUA].
Anderson, Chris (2004). The Long Tail. Wired Magazine, Issue 12.10, Outubro. Disponível http://www.wired.com/wired/archive/12.10/tail.html [acedido em 15-12-2008].
Anderson, Paul (2007). What is Web 2.0: Ideas, technologies and implications for education. JISC Technology and Standards Watch. Disponível em http://www.jisc.ac.uk/media/documents/techwatch/tsw0701b.pdf [acedido em 15-12-2008].
Bowman, Shayne & Willis, Chris (2003). We Media: How Audiences are Shaping the Future of News and Information. The Media Center at the American Press Institute. Disponível em http://www.hypergene.net/wemedia/download/we_media.pdf [acedido em 15-12-2008].
Locke, Christopher; Levine, Rick; Searls, Doc; Weinberger, David (1999). The Cluetrain Manifesto: The End of Business as Usual. Disponível em http://www.cluetrain.com/book/index.html [acedido em 15-12-2008].
O’Reilly, Tim (30-09-2005). What Is Web 2.0: Design Patterns and Business Models for the Next Generation of Software. O’Reilly. Disponível em http://www.oreillynet.com/pub/a/oreilly/tim/news/2005/09/30/what-is-web-20.html [acedido em 15-12-2008].
Rosen, Jay (27-06-2006). The People Formerly Known as the Audience. Pressthink. Disponível em http://journalism.nyu.edu/pubzone/weblogs/pressthink/2006/06/27/ppl_frmr... [acedido em 15-12-2008].
Será que o que se passa relativamente a essa tradição de abertura de que fala Paul Anderson se estende a outras áreas? Isto é, representará a Web2.0 uma verdadeira mudança de paradigma, uma nova era na utilização da web, ou apenas uma evolução natural que, com algumas novas práticas ou tecnologias, não faz mais que prolongar e intensificar o que já existia há muito?
Das várias vozes que advogam esta última perspectiva, a mais notável não pode deixar de ser a daquele que é o inventor da própria World Wide Web, Tim Berners-Lee[1]. Em entrevista a Scott Laningham, para os developerWorks podcasts da IBM, diz ele em resposta à pergunta sobre se concordava com a perspectiva de que a Web 1.0 tinha a ver com a ligação entre computadores e com o disponibilizar informação, enquanto que a Web 2.0 tem a ver com a ligação entre as pessoas e o facilitar de novas formas de colaboração:
Totally not. Web 1.0 was all about connecting people. It was an interactive space, and I think Web 2.0 is of course a piece of jargon, nobody even knows what it means. If Web 2.0 for you is blogs and wikis, then that is people to people. But that was what the Web was supposed to be all along. And in fact, you know, this 'Web 2.0', it means using the standards which have been produced by all these people working on Web 1.0.(Laningham, 2006: Podcast)
E percebe-se melhor, um pouco depois, porque é que Berners-Lee rejeita, do seu ponto de vista, esta noção de ruptura relativamente ao passado da Web. Inventor do WorldWideWeb – o primeiro browser, criado em 1990 num sistema NeXT (Berners-Lee, 2000), diz ele a propósito desta aplicação que permitia “ver” a Web:
And the original World Wide Web browser, of course, was also an editor (…) We'd had WYSIWYG editors for a long time. So my function was that everybody would be able to edit in this space, or different people would have access rights to different spaces. But I really wanted it to be a collaborative authoring tool. And for some reason, it didn't really take off that way (…) But I've always felt frustrated that most people don't ... didn't have write access. (Laningham, 2006: Podcast)
Para Berners-Lee, o sucesso de wikis e blogues, decorrente do entusiasmo com que os utilizadores os adoptaram, apenas reflecte a necessidade das pessoas de serem criativas e de participarem no diálogo global (op. cit.). A possibilidade de editar o espaço que se visualiza, uma ferramenta colaborativa de autoria, a necessidade de criatividade das pessoas, a possibilidade de registar o que pensam, de corrigir o que vêm que está mal, parecem, de facto, noções que configuram uma Read/Write Web, uma outra designação para a Web 2.0. Note-se como, apesar de ser alguém profundamente envolvido na criação e desenvolvimento dos suportes tecnológicos que sustentam a Web, o discurso de Berners-Lee se centra na interacção e na comunicação entre as pessoas, na colaboração, na criatividade e na produção de conteúdos, não no aparato tecnológico que lhe subjaz. Ainda nas suas palavras:
I have always imagined the information space as something to which everyone has immediate and intuitive access, and not just to browse, but to create.(citado por Paul Anderson, 2007: 14)
Por sua vez, e se prolongarmos um pouco mais esta viagem em direcção ao passado, muitos destes conceitos associados à Web que temos vindo a referir – liberdade, partilha, colaboração, comunicação, intervenção cívica, alteração nas relações de poder, etc. – podem encontrar-se na própria génese e desenvolvimento da Internet. Ou, dito de outro modo: o chassis tecnológico que suportou o desenvolvimento das Tecnologias da Informação e da Comunicação parece ter sido sempre recoberto por um conjunto de valores e práticas que, à falta de melhor termo, poderíamos designar como “cibercultura”, de que a Web 2.0 seria, apenas, a instância mais recente.
No capítulo dois de La Galaxia Internet, intitulado La Cultura de Internet, Castells (2001: 51) afirma:
Los sistemas tecnológicos se producen socialmente y la producción social viene determinada por la cultura. Internet no constituye una excepción a esta regla. La cultura de los productores de Internet dio forma a este médio.
Esta afirmação de Castells, que este usa como ponto de partida para dizer, mais à frente, que “La cultura de Internet es la cultura de los creadores de Internet” (op. cit.: 51), é da maior importância, porque põe em causa a perspectiva mais ou menos disseminada entre muitas das vozes que reflectem sobre o impacto e o papel das (novas) tecnologias na sociedade e nos indivíduos. De facto, ao contrário da crença de que são os avanços tecnológicos que vão moldando a sociedade e as formas de viver e comunicar, podemos, a partir desta ideia, perspectivar o processo de um outro ângulo: são as dinâmicas culturais e os processos de transformação social que favorecem ou potenciam o desenvolvimento tecnológico, condicionando-o ou moldando-o como resposta a necessidades não preenchidas e que, através dele, encontram formas operacionais de se exprimir e realizar.
Este deslocamento do olhar sobre as tecnologias como o motor das transformações para os processos culturais e sociais que estão na base do desenvolvimento tecnológico ajuda desde logo a explicar, por exemplo, a história (já relativamente longa) do insucesso da introdução dos computadores nas escolas, ou os enganos e mal-entendidos em que se têm arrastado boa parte das experiências na área do ensino online ou do e-learning.
Sem as convulsões registadas nos anos 60 nos Estados Unidos da América, que passaram muito pela desvinculação de uma elite universitária face a um modelo de sociedade em que não se reviam e que queriam mudar profundamente, jamais teríamos tido a Internet como a conhecemos hoje (a Universidade de Berkeley, por exemplo, centro do Free Speech Movement e da contestação aos poderes instituídos nos anos 60, emerge na década seguinte como um dos principais pólos de desenvolvimento tecnológico que está na base da Internet). A expansão e a valorização do conceito de liberdade individual, a descoberta do conhecimento enquanto valor económico primordial, a resistência à autoridade e à organização “vertical”, privilegiando-se uma organização “horizontal” de partilha, cooperação e co-responsabilidade são alguns dos aspectos que resultaram desse processo e que se encontram embebidos na própria natureza da Internet. Conceitos em voga nos anos 70 e 80, quando a Internet dava os primeiros passos e se desenvolvia, como “small is beautiful”, “think globally, act locally” ou a “grassroots economy” centravam-se precisamente na ideia de redes de partilha (de poder, de competências e de conhecimentos), cooperação e entreajuda, que constitui um dos pilares do open source e do software livre. Muitos destes aspectos estão presentes em três dos quatro estratos culturais que, segundo Castells (2001), produziram e moldaram a Internet:
1) a cultura tecnomeritocrática, que promove o desenvolvimento tecnológico segundo um modelo académico - investigação científica partilhada, reputação e reconhecimento obtidos mediante a qualidade e a operacionalidade do trabalho produzido, a avaliação pelos pares e a publicitação e disseminação da investigação realizada e do conhecimento construído;
2) a cultura hacker, constituída por wiz kids que privilegiam sobretudo a liberdade, a cooperação, a reciprocidade e a informalidade, livres de constrangimentos institucionais e/ou corporativos e que encontram na rede e na virtualidade o seu habitat natural;
3) as comunidades online, que deram conteúdo e expressão social ao uso da tecnologia, trazendo para a rede a vida social e usando-a para expandir as formas de interacção, cooperação e entreajuda.
Ironicamente, a Internet como meio privilegiado de comunicação e acesso à informação que conhecemos hoje, massificada e largamente disseminada, não teria sido possível sem um quarto estrato cultural: o dos empresários capitalistas. Largamente alheios aos altos e nobres princípios e valores dos restantes estratos, interessados apenas em fazer dinheiro, o mais possível, foram no entanto eles que emprestaram (e continuam a emprestar) ao conhecimento disponível o investimento necessário para a sua concretização a larga escala.
Hoje, o espaço privilegiado onde se desenvolve a cultura digital é ainda um contexto muito heterogéneo, em que novas formas muito eficientes de comunicar e de armazenar, processar e distribuir informação coexistem com formas muito anárquicas e de baixo valor informativo e comunicativo. Por outro lado, a diversidade de práticas e experiências que resultam de uma grande variedade de subculturas e redes de interesses fazem da cibercultura um conceito complexo e multifacetado. Mas nesta linha que traçámos a partir de Berners-Lee e de Castells, parece indubitável que muitos dos elementos constitutivos da natureza da Internet e da Web, incluindo um certo carácter de contra-cultura e de contra-poder(es), um espaço de liberdade e de criatividade, descentralizado e “deslocalizado”, se encontram presentes em muitas das caracterizações da Web 2.0. Desse ponto de vista, a obra The Cluetrain Manifesto: The End of Business as Usual, publicada em 1999 por Chris Locke, Rick Levine, Doc Searls e David Weinberger, parece-nos ilustrar claramente essa relação de continuidade. Veja-se também, apenas a título de exemplo, a referência que Slevin faz à noção de “esfera pública” de Habermas, definida como
a forum, constituted by a community of individuals, coming together as equals, capable of producing and reproducing a public opinion through critical discussion, argument and reasoned debate. (citado por Slevin, 2000: 76)
Não sendo só isto, a cibercultura pode ser também isto, expresso na imensidão de blogues e user-powered sites[2] orientados para a dissecação e discussão públicas dos mais variados temas, incluindo a questionação da informação veiculada nos média dominantes, como a televisão, a rádio ou os jornais, ou as outras formas já referidas através das quais milhões de pessoas em todo o mundo se envolvem em verdadeiras redes de produção e de partilha de informação e de conhecimento.
Em suma, diríamos que a cibercultura parece construir-se na confluência das características já referidas relativas à génese e desenvolvimento da Internet e da Web, permanecendo ainda central naquilo que se designa comummente como Web 2.0. É no próprio Tim O’Reilly que podemos encontrar um fundamento sólido para este continuum que tentámos aqui traçar. Numa das várias tentativas posteriores para clarificar o conceito de Web 2.0, define assim uma das regras essenciais para o sucesso nessa nova plataforma:
Build applications that harness network effects to get better the more people use them.(O’Reilly, 10-12-2006)
E, em jeito de comentário a este princípio que havia anteriormente formulado como “harnessing collective intelligence”, acrescenta, quase como num aparte:
(Eric Schmidt has an even briefer formulation of this rule: "Don't fight the internet." (…) Think deeply about the way the internet works, and build systems and applications that use it more richly, freed from the constraints of PC-era thinking, and you're well on your way. Ironically, Tim Berners-Lee's original Web 1.0 is one of the most "Web 2.0" systems out there -- it completely harnesses the power of user contribution, collective intelligence, and network effects).(op. cit.)
Resta saber se, tal como a “esfera pública” de Habermas, a cibercultura vai acabar por ser dominada pelos interesses comerciais e pela intervenção dos governos, sempre ávidos de controlar o(s) discurso(s) público(s) ou se, pelo contrário, vai conseguir preservar as características que herdou dos processos sociais e das dinâmicas culturais que lhe deram origem. Há, sem dúvida, perigos emergentes, desde logo os que resultam do excesso de informação e das estratégias das grandes corporações, como notam Geert Lovink (05-09-2008), em The society of the query and the Googlization of our lives (Stop searching, start questioning, é o mote deste artigo), ou Nicholas Carr, que no seu artigo de 2008, intitulado Is Google Making Us Stupid?, fala da forma como, na sua perspectiva, a nossa percepção da informação, nomeadamente no que se refere à leitura, está a ser “formatada” para uma abordagem mais superficial, de tempos de atenção muito menores, tornando-nos de novo consumidores menos críticos e mais facilmente manipuláveis pelos interesses comerciais que são a outra face (a melhor ou a pior, dependendo da perspectiva) da nossa experiência da Web como espaço social.
[1]Investigador no CERN, responsável pela criação da linguagem HTML e do protocolo HTTP, actualmente com um papel muito activo no desenvolvimento da chamada “web semântica”.
[2]Sites cujos conteúdos são da responsabilidade de grandes grupos de utilizadores. Alguns exemplos mais conhecidos são o Digg, o Delicious, o Slashdot ou o Youtube.
Anderson, Paul (2007). What is Web 2.0: Ideas, technologies and implications for education. JISC Technology and Standards Watch. Disponível em http://www.jisc.ac.uk/media/documents/techwatch/tsw0701b.pdf [acedido em 15-12-2008].
Berners-Lee, Tim (21-11-2007). Giant Global Graph. Decentralized Information Group (DIG): timbl's blog. Disponível em http://dig.csail.mit.edu/breadcrumbs/node/215 [acedido em 15-12-2008].
Berners-Lee, Tim (2000). Tejiendo la Red. Madrid: Siglo XXI.
Carr, Nicholas (2008). Is Google Making Us Stupid? The Atlantic, Julho/Agosto. Disponível em http://www.theatlantic.com/doc/200807/google [acedido em 15-12-2008].
Castells, Manuel (2001). La Galaxia Internet. Barcelona: Areté.
Laningham, Scott (Ed.) (2006). Tim Berners-Lee. Podcast. developerWorks Interviews, 22 de Agosto, site da IBM. Disponível em http://www.ibm.com/developerworks/podcast/dwi/cm-int082206txt.html [acedido em 15-12-2008].
Locke, Christopher; Levine, Rick; Searls, Doc; Weinberger, David (1999). The Cluetrain Manifesto: The End of Business as Usual. Disponível em http://www.cluetrain.com/book/index.html [acedido em 15-12-2008].
Lovink, Geert (05-09-2008). The society of the query and the Googlization of our lives. Eurozine. Disponível em http://www.eurozine.com/articles/2008-09-05-lovink-en.html [acedido em 15-12-2008].
O’Reilly, Tim (10-12-2006). Web 2.0 Compact Definition: Trying Again. O’Reilly Radar. Disponível em http://radar.oreilly.com/archives/2006/12/web-20-compact.html [acedido em 15-12-2008].
Slevin, James (2000). The Internet and Society. Cambridge, UK: Polity Press.
Neste Capítulo 2, O Conhecimento, o Individual e o Colectivo na Web 2.0, exploramos a noção de confluência entre vários aspectos da posmodernidade e da cultura digital, bem como o efeito acelerado e ampliador da Web 2.0, para reflectir sobre a problematização da noção de conhecimento, da sua finalidade, validade e produção. Em seguida, procuramos clarificar a relação entre o individual e o colectivo na Web 2.0, bem como vários conceitos, por vezes mal representados ou confundidos, como sejam os de Wisdom of Crowds e Inteligência Colectiva.
Este Capítulo subdivide-se em 2 pontos:

Retomando as questões que introduzimos com Castells relativas às relações entre cultura, produção social e sistemas tecnológicos (2001), verifica-se que, alargando um pouco o nosso campo de análise, encontramos outros elementos que parecem fundamentais para compreender algumas das questões mais relevantes no âmbito da Web 2.0 (e da cultura digital, em geral) no que se refere à natureza e características da informação e do conhecimento. Na obra que é uma das grandes referências para a compreensão da pós-modernidade, intitulada The Condition of Postmodernity, David Harvey (2001) escreve o seguinte:
Postmodernism swims, even wallows, in the fragmentary and the chaotic currents of change as if that is all there is. Foucault (1983, xiii) instructs us, for example, to “develop action, thought and desires by proliferation, juxtaposition, and disjunction”, and “to prefer what is positive and multiple, difference over uniformity, flows over unities, mobile arrangements over systems. Believe that what is productive is not sedentary but nomadic” (Harvey, 2001: 44).
Num certo sentido, a cultura digital pode ser vista como um estádio que exprime ou reforça muitas das características presentes na sociedade pós-moderna: a problematização da identidade; as questões ligadas à autenticação do discurso; o esbater das barreiras entre produtor e receptor; a fragmentaridade e a relativização do conhecimento; o esbatimento da noção de verdade em favor das noções de funcionalidade e operacionalidade; a preponderância da linguagem como forma de interpretar o mundo (e o que daí resulta, dada a natureza ambígua da linguagem, mas também a sua tendência para se instituir como poder); os efeitos de colagem e sobreposição; ou uma certa resistência “intuitiva” ao poder e à autoridade, em favor da partilha e da cooperação (ainda, do vertical ao horizontal) (Harvey, op. cit.).
Como refere Pierre Lévy (1994), o declínio da verdade e da objectividade não emergiram da Internet ou do saber informatizado. São aspectos estruturantes da pós-modernidade, como o são o relativismo, a fragmentaridade, a indeterminação ou a ambiguidade. O que parece ter acontecido, na linha aliás do que diz Castells (2001), e nós nos atrevemos a levar um pouco mais longe, é que a pós-modernidade encontrou na Internet e na cultura digital, em muitos aspectos, uma realização concreta e operativa de muitos dos seus pressupostos, em especial no caso da Web2.0.
Naturalmente que esta instabilidade e incerteza, ou indeterminação, naquilo que nos habituámos a ver como constantes, como o saber e o conhecimento, levantam problemas difíceis de conciliar. Escreve Lévy:
É grande a tentação de condenar ou ignorar aquilo que nos é estranho. É possível que nem sequer nos apercebamos da existência de novos estilos de saber, muito simplesmente porque estes não correspondem aos critérios e às definições que nos constituem e que herdámos da tradição. (Lévy, 1994: 149)
Mesmo quando as mudanças são naturais – as que se verificam de geração para geração – parece emergir sempre, em alguns sectores da sociedade, o sentimento de que se estão a perder valores e saberes fundamentais e a substituí-los por outros de menor valor. É por isso que as referências à degenerescência das novas gerações remontam à Antiguidade. E, no entanto, a ser verdade, hoje estaríamos certamente num estádio de evolução próximo do nosso patamar de início. Isto quer dizer que é difícil compreendermos, destrinçarmos, aquilo que no novo é bom, irá perdurar e fazer-nos evoluir, aquilo que no novo é mau e acabará por ser abandonado, aquilo que do antigo vale a pena preservar e aquilo que do antigo é preciso abandonar. Este sentimento é sobretudo agudizado quando, como acontece nos dias de hoje, somos apanhados em períodos de transição em que emergem mudanças estruturais profundas nas nossas formas de vida, com a agravante de, neste caso, estas ocorrerem a uma velocidade vertiginosa. Mas há sempre mais do que uma perspectiva a partir da qual se pode olhar para uma determinada problemática. Onde os mais acérrimos defensores dessa tradição secular vêem apenas aspectos negativos e a inevitável decadência da civilização, Pierre Lévy vê oportunidades e a necessidade de compreensão do fenómeno:
É sempre possível lamentar «o declínio da cultura geral», o pretenso «barbarismo» tecnocientífico ou a «derrota do pensamento», sendo infelizmente cultura e pensamento cristalizados numa pseudo-essência que não passa de uma imagem idealizada dos bons velhos tempos. É mais difícil, mas também mais útil, apreender o real que está a nascer, torná-lo consciente de si mesmo, acompanhar e guiar os seus movimentos, de maneira a que venham à tona as suas potencialidades mais positivas. (1994: 150)
O saber informatizado, digital, não tem a verdade como meta, antes procura “a velocidade e a pertinência da execução, a rapidez e a oportunidade da mudança operatória” (op. cit.: 151). Nesse movimento em que se afasta do “saber de cor”, a verdade pode deixar de ser o interesse fundamental, em benefício da operacionalidade e da velocidade (op. cit.). O que tinha uma natureza de certa forma perene adquire, nestes novos contextos de comunicação, um carácter mais transitório e pragmático. Dada a pluralidade e variedade de meios através dos quais no chega a informação, “as mensagens escritas são cada vez menos recebidas ou interpretadas fora do contexto da sua emissão” (op. cit.: 153). Por essa razão, e adicionando a ela o facto de o saber se transformar a uma velocidade crescente, elas”cada vez menos são concebidas para durar” (ibidem). Poder-se-ia pensar que este fenómeno se aplicaria apenas a situações de comunicação mais informal, não se estendendo a áreas tradicionalmente identificadas com o rigor, a verdade e a objectividade. Mas, segundo Lévy,
[m]esmo no campo científico, os critérios de pertinência, aqui e agora, assumem a pouco e pouco a primazia sobre os critérios de universalidade e de objectividade (ibidem).
Neste contexto dominado pela informação e pelos media, característico de uma era que Lévy designa como “Pólo informático-mediático”, já não é a verdade, consubstanciada na crítica, na objectividade e na universalidade que constitui o critério dominante, tendo sido substituída pela eficácia, a pertinência local e a mudança. A informação pode ser decomposta e recomposta, fragmentada, aglomerada em sínteses construídas a partir de diferentes linguagens (texto, gráficos, som, vídeo); a noção de autoria perde estabilidade; o receptor pode tornar-se também ele um produtor. Ligado a isto, a própria velocidade a que a informação pode mudar, ser recombinada e distribuída, e o facto de a organização social na cultura digital tender muito mais para a cooperação e a partilha, ajudam a consolidar não só o subverter da objectividade como de verdades absolutas. Daí resulta uma preferência pelo conhecimento operacionalizável, funcional, útil e adequado no momento em que precisamos dele. Se, num outro contexto ou situação, esse conhecimento se revelar imperfeito ou ineficaz, podemos, dada a rapidez e a facilidade de acesso à informação, mobilizar outras combinações, perspectivas ou actualizações que sejam mais adequadas nesse momento ou para esse fim. Como refere Scott Leslie,
every single day I share my learning and have knowledge and learning shared back with me (…) I literally don’t think I could do my job any longer without it - the pace of change is too rapid, the number of developments I need to follow and master too great, and without my network I would drown. (08-11-2008)
Nesta dinâmica, o que importa é que o conhecimento ou a informação requeridos estejam disponíveis no momento em que são precisos, cheguem eles acidentalmente, através da pesquisa ou por um pedido expresso nas redes que se habitam, e sejam utilizáveis de imediato:
Our sharing is “good enough,” not perfect; optimal, not ideal. We don’t build our entire houses on this single foundation, but it sure helps get a lot of structure built quickly on many an occasion. (op. cit.)
Na formulação de George Siemens (2006), assistimos à transição entre o “hard knowledge” e o “soft knowledge”. O primeiro ocorre em áreas em que a mudança é lenta, solidificando-se através da validação por peritos e da aceitação do público. O segundo, que se desenvolveu sobretudo nas últimas décadas, resulta do facto de a rapidez com que as circunstâncias evoluem não permitir que muitos dos elementos do conhecimento ganhem consistência suficiente antes de serem substituídos ou alterados. Segundo este autor, precisamos mudar a forma como entendemos e lidamos com o conhecimento:
We have spent our history with hard/codified knowledge as a product. We now need to learn to work with soft knowledge as a process. (Siemens, 2006: 22)
Contudo, as questões da validade e da autenticidade do conhecimento, assim como das formas de as garantir, continuam a colocar-se, sendo necessário encontrar modos adequados, nestes novos contextos, de o conseguir. Não os que passem pelos antigos modelos baseados na hierarquia e no controlo, mas por outros que se caracterizem pelo diálogo e a transparência, suportados em redes fiáveis e em novas ecologias do conhecimento (op. cit.). Da mesma forma que a era industrial causou profundas mudanças na sociedade de então, também agora a nossa sociedade se está a reestruturar em função do conhecimento. Assim, na perspectiva de Siemens:
The barriers, inhibitors, obstacles, and unnecessary structures are giving way to models which permit effective knowledge creation, dissemination, communication, personalization, and flow. (op. cit.: 69)
De consumidores de conhecimento, passámos a co-criadores. Estabelecemos conexões, partilhamos, seleccionamos, recombinamos, personalizamos, tornamo-lo nosso. Neste imenso fluxo ininterrupto temos que processar o conhecimento em tempo real, de modo a podermos escolher o que é relevante e garantir que tomamos as decisões com base em informação significativa e actualizada. Há um sentimento de imediatismo que obriga a que os actos de interpretar e tomar decisões se desenrolem com a mesma rapidez e no mesmo espírito do fluxo de conhecimento (Siemens, 2006).
Para além das mudanças no contexto em que o conhecimento se desenvolve, é o próprio conhecimento que vê as suas características alteradas. Siemens (op. cit.) propõe oito factores que, segundo ele, caracterizam o conhecimento hoje, e que abordamos em seguida.
1. Abundância (Abundance)
Devido a uma série de factores já apresentados, a quantidade de conhecimento disponível e a rapidez com que é produzido estão a aumentar de forma acelerada, o que nos levanta dificuldades insuperáveis em termos da nossa capacidade de atenção e de lidar com tal volume de informação. Por outro lado, e como havia já referido Lévy (1994), a criação constante de novo conhecimento faz com que o que existe se deprecie rapidamente e veja o seu tempo de vida útil drasticamente reduzido:
An expectancy of relevance and currency of knowledge for a cycle of years and decades, has now been reduced to months and years for many disciplines. (Siemens, 2006: 81)
2. Recombinação (Recombination)
A capacidade de conectar, recombinar e recriar são as marcas distintivas do conhecimento hoje. Dos pequenos núcleos modulares podemos criar estruturas mais complexas e mais personalizadas, incluindo em diferentes média e contextos. Passado o tempo da convergência do conhecimento, a transferência de conhecimento de um campo para outro e a sua aplicação, que o autor designa como “transvergence” (transvergência), é a nova realidade (op. cit.: 82).
3. Relação com a certeza (Relation to certainty)
Já vimos, com Lévy (1994), como o conhecimento perdeu algum do seu carácter perene e se tornou mais transitório e indeterminado. Para Siemens (2006), ele transforma-se num constante devir, em que a certeza (definitiva) está permanentemente suspensa: fazemos uma descoberta, alguém a desenvolve e amplia (transvergência), ou é refutada por nova investigação, ou as condições em que se funda mudaram e temos que a actualizar.
4. Ritmo de desenvolvimento (Pace of development)
Ao ritmo e volume que o conhecimento é produzido, é impossível assimilarmos tudo o que é relevante e preciso para preencher as nossas necessidades. “The pipe is more important than the content within” é a forma que Siemens (2006: 83) encontra para dizer que, mais importante do que o conhecimento que temos num determinado momento, é a capacidade de aprendermos o que vamos precisar amanhã. Na falta ou insuficiência desse conhecimento, é fulcral que possamos contar com bons canais de comunicação através dos quais nos possamos ligar às fontes que nos possam fornecê-lo, um pouco como Scott Leslie (08-11-2008) reportava a propósito das suas redes de suporte.
5. Representação através de média (Representation through media)
Knowledge is amplified in the multiplicity of representation choices. (Siemens, 2006: 84)
Num contexto rico em media, podemos agora comunicar as nossas experiências e emoções de modos muito diversificados e expressivos: através de texto, vídeo, áudio, jogos, etc.. Já não temos que restringir-nos ao uso de um medium único; antes, podemos escolher a abordagem que considerarmos mais adequada tendo em conta o contexto, os recursos e as necessidades que identificamos. A multiplicidade inerente ao conhecimento é agora expressa por muitos indivíduos de formas muito diversas.
6. Fluxo (Flow)
Numa economia do conhecimento, criar, preservar e utilizar o seu fluxo é uma actividade fundamental. Na passagem de uma organização hierárquica para uma organização em rede, é crucial tratar dos aspectos que podem inibir ou facilitar o fluxo do conhecimento na rede. Os inibidores de fluxo (flow inhibitors), internos ou externos, como, por exemplo, resistências, ideias preconcebidas, a burocracia ou uma certa cultura de (não) partilha de conhecimento são elementos que reduzem o fluxo de conhecimento e de informação numa rede ou entre redes. Já a receptividade e a motivação, enquanto elementos internos ao indivíduo, ou uma cultura de abertura e o reconhecimento do valor da colaboração, enquanto elementos externos, funcionam como aceleradores do fluxo, facilitando processos rápidos de produção e distribuição do conhecimento, bem como de formação de redes. (Siemens, 2006)
7. Espaços e estruturas de organização e disseminação do conhecimento (Spaces and structures of knowledge organization and dissemination)
Os espaços (escolas, museus, o ciberespaço) e as estruturas (sistemas de classificação, hierarquias, governo) são os elementos organizacionais da sociedade. Os primeiros constituem o ambiente em que interagimos e partilhamos, as segundas fornecem o processo e o modo através dos quais tomamos decisões e o conhecimento flui. Na evolução para uma sociedade do conhecimento,
Ecologies and networks provide the solution to needed structures and spaces to house and facilitate knowledge flow. (Siemens, 2006: 86)
As ecologias, enquanto entidades orgânicas, são muito adaptativas e lidam bem com o crescimento rápido e a emergência de novas ideias e circunstâncias. Enquanto ambientes de partilha de conhecimento, elas devem ter características que potenciem e facilitem a sua criação e fluxo. Nas palavras de Siemens,
An ecology, a knowledge sharing environment, should have the following components: informal, not structured; tool-rich; consistency and time; trust; simplicity; decentralized, fostered, connected; high tolerance for experimentation and failure. (2006: 87-88)
As redes, por seu lado, surgem como o novo modelo estrutural, substituindo o fluxo de causa-efeito, controlado a partir do topo, característico das hierarquias, pelo modelo adaptativo das redes, emergente, dinâmico e flexível. Enquanto o modelo hierárquico procura adaptar o conhecimento à organização, o modelo em rede procura adaptar a organização ao conhecimento. Apresenta-se, em seguida, um quadro em que se comparam as principais diferenças entre os dois modelos estruturais.
| HIERARQUIAS | REDES |
| Estáticas (Static) |
Dinâmicas (Dynamic) |
| Estruturadas (à partida) (Structured [in advance]) |
Estrutura fluida (Flowing structure) |
| Estáveis (Stable) |
Igualdade (em teoria) Equality (in theory) |
| Geridas (Managed) |
Entidades conectadas (Connected entities) |
| Fronteiras (Boundaries) |
Estrutura definida pelos processos e pelos participantes (Participant & process defined structure) |
| Centralizadas (Centralized) |
Descentralizadas (Decentralized) |
| Certeza (Certainty) |
Adaptativas (Adaptive) |
| Geridas e criadas (Managed and created) |
Apoiadas e fomentadas (Nurtured and fostered) |
| Pré-filtradas (Pre-filtered) |
Emergentes |
Quadro 2 - Knowing Knowledge. George Siemens (2006: 91).
8. Descentralização (Decentralization)
Uma das grandes vantagens da descentralização do conhecimento é que ela permite aos utilizadores organizarem-no, eles próprios, de modos que lhes sejam mais úteis do que os produzidos por outros (peritos, editores, etc.). Aos agentes centralizadores do passado (televisão, jornal, rádio), que organizavam e estruturavam a informação que consumíamos, sucedemos nós enquanto organizadores activos de agentes individuais. Somos nós quem decide como se agrega e organiza a informação que nos interessa; somos nós que tecemos as nossas redes. Como refere Siemens,
“Know where” is replacing “know what” and “know how.” The rapid, continual knowledge flow cannot be contained and held in the human mind. To survive, we extend ourselves through our networks: computers, humans, databases, and still unfolding new tools. (2006: 93)

Fig. 3 - Knowing Knowledge. George Siemens (2006: 94).
Contudo, esta nova ecologia também tem os seus riscos. Os agentes centralizadores permitem a criação de uma linguagem e compreensão partilhadas que possibilitam o diálogo entre perspectivas divergentes ou contraditórias. Se deixamos de partilhar com outros esses agentes e passarmos a receber informação a partir de fontes ou redes que apenas reflectem ou reforçam os pontos de vista que já possuímos, isso dificultará o diálogo e a interacção com pontos de vista divergentes, que permitiriam uma visão global mais equilibrada e mais adequada. Logo, temos que ir para além do encontro ocasional com a diversidade e procurá-la activa e intencionalmente. Nas palavras de Siemens,
It is to our health that we consume information from differing spectrums of thought. Whatever our view or perspective, as actors on a global stage, we need to move (at minimum) to dialogue with those around us. Closing spaces equals closing minds. (2006: 95)
Este aspecto está intimamente ligado a outro, que é a relação dinâmica, e nem sempre pacífica, entre o individual e o colectivo na Web 2.0. Já referimos no capítulo anterior alguns elementos relevantes para a compreensão desta problemática, mas parece-nos importante clarificar um pouco melhor algumas noções não raramente confundidas ou mal interpretadas, como a “sabedoria das multidões” (wisdom of crowds), a inteligência colectiva, os grupos ou as redes.
Castells, Manuel (2001). La Galaxia Internet. Barcelona: Areté.
Harvey, David (2001). The Condition of Postmodernity – An Enquiry into the Origins of Cultural Change. Cambridge MA: Blackwell (ed. original 1990).
Leslie, Scott (08-11-2008). Planning to Share versus Just Sharing. Edtechpost. Disponível em http://www.edtechpost.ca/wordpress/2008/11/08/just-share-already/ [acedido em 15-12-2008].
Lévy, Pierre (1994). As Tecnologias da Inteligência: o Futuro do Pensamento na Era Informática. Lisboa: Instituto Piaget. [Edicão original francesa de 1990 pelas Éditions La Découverte].
Siemens, George (2006). Knowing Knowledge. Disponível em http://www.elearnspace.org/KnowingKnowledge_LowRes.pdf [acedido em 15-12-2008].
Ainda muito recentemente, Richard Nantel, referindo-se ao conceito de Wisdom of Crowds avançado por Surowiecki na obra com este título (2004), escrevia que
the benefit of collaboration over individual effort has been embraced as dogma. It’s now difficult to find anyone who believes that the work of an individual can be better than what is produced by a group (...) I disagree with the belief that the results of a group effort will usually produce superior results to the efforts of skilled individuals. (12-11-2008)
Stephen Downes, disponibilizando a ligação a este post no mega-filtro que é a sua newsletter diária OLDaily (Online Learning Daily), comentava:
Once again (*sigh*) the point of the Wisdom of Crowds and related writing (including my own) is not "the benefit of collaboration over individual effort." It's not about 'collaboration' (in its many forms at all). Nor is it that "the results of a group effort will usually produce superior results to the efforts of skilled individuals." There is a distinction between groups and networks that must be heeded if you want to understand things like 'the wisdom of crowds' at all. (13-11-2008)
O *suspiro* (sigh) de Downes demonstra bem o quanto esta dificuldade em percepcionar de forma clara os vários conceitos relacionados com as diversas formas de “colectivo” se tem arrastado ao longo dos anos. A noção de um certo colectivismo igualitário, que exalta as virtudes dos grupos e dos esforços colaborativos (entendidos numa perspectiva muito reducionista) e apaga as diferenças individuais, que Nantel critica na entrada acima referida, acabou por se disseminar em muitos círculos e tem merecido fortes reacções.
Num ensaio publicado no site da Edge Foundation, com o título sugestivamente polémico de DIGITAL MAOISM: The Hazards of the New Online Collectivism, Jaron Lanier (30-05-2006) desenvolve uma forte crítica a esta noção de colectivismo que, segundo ele, está a desumanizar a Web:
In the last year or two the trend has been to remove the scent of people, so as to come as close as possible to simulating the appearance of content emerging out of the Web as if it were speaking to us as a supernatural oracle.
A crítica de Lanier dirige-se, por um lado, à Wikipédia (àquilo de que ela é um exemplo de grande sucesso), i.e. ao facto de as entradas serem produzidas por um colectivo sem nome, apenas alcunhas (nicknames), ainda assim em relação aos quais se torna muito difícil identificar as contribuições individuais ou um princípio editorial. Para ele, um nome, uma “voz”, são o que dá contexto e reflecte uma personalidade, o que permite compreender de forma muito mais completa do que quando se está perante um texto anónimo, sem garantia de autenticidade e sem contexto. Outra crítica que Lanier avança tem a ver com os agregadores, relativamente aos quais, segundo ele, se tem assistido a uma corrida no sentido de “quanto maior melhor”, numa tentativa de conseguir atingir o maior “meta-agregador” possível. Escreve ele que
We now are reading what a collectivity algorithm derives from what other collectivity algorithms derived from what collectives chose from what a population of mostly amateur writers wrote anonymously. (30-05-2006)
Esta massa de escritores amadores, publicando anonimamente, faz com notícias triviais, roçando por vezes o ridículo ou o patético, soterrem as notícias realmente relevantes, escritas maioritariamente por escritores e editores profissionais devidamente identificados. O que Lanier parece não discutir aqui é que os utilizadores têm o poder de escolher os sítios que visitam ou em que participam. Para este autor, “the hive mind is for the most part stupid and boring. Why pay attention to it?” (op. cit.). O autor relaciona esta questão da atracção pelo colectivismo anónimo que, segundo ele, parece assolar a Internet, com a da Inteligência Artificial que, para alguns, poderia emergir (ou estar já mesmo presente) como uma entidade na Internet, o que Lanier considera errado e absurdo:
The beauty of the Internet is that it connects people. The value is in the other people. If we start to believe the Internet itself is an entity that has something to say, we're devaluing those people and making ourselves into idiots. (op. cit.)
Assistimos, na sua perspectiva, a uma glorificação falaciosa do colectivo infalível, que leva a que as competências e capacidades individuais sejam sacrificadas à massa indistinta de um grupo que, em última análise, se torna normativa e opressora. Lanier reconhece existirem situações em que o colectivo pode ser mais competente do que um único indivíduo, que refere como instanciações da “sabedoria das multidões” (wisdom of crowds) [1]. Mas também existem muitos outros em que os colectivos funcionam mal e produzem resultados maus (as bolhas na Bolsa de valores, o bug do ano 2000 são dois dos exemplos que dá). No fundo, as situações em que um colectivo e os indivíduos revelam inteligência ou estupidez são diferentes, e é por isso que ambos são essenciais, segundo ele.
Kathy Sierra, numa entrada com um título também muito sugestivo, The “Dumbness of Crowds” (02-01-2007), tem uma abordagem menos radical a esta questão. Embora exaltando as virtudes do indivíduo (o exemplo dado é Steve Jobs, director executivo da Apple) face ao colectivo, tenta uma comparação mais sistemática entre as duas esferas.

Fig. 4 ”The Dumbness of Crowd”. Kathy Sierra (02-01-2007).
Focalizando a atenção nas interpretações erróneas que têm sido feitas do conceito de “sabedoria das multidões”, de Surowiecki, Kathy Sierra (02-01-2007) afirma que esta sabedoria não resulta de consensos ou esforços comuns, mas antes da agregação do conhecimento independente dos indivíduos:
It's the sharp edges, gaps, and differences in individual knowledge that make the wisdom of crowds work.
Tendo aspectos meritórios, a verdade é que esta sua reflexão, quando avança para exemplos em que contrasta aquilo que passa a designar por “inteligência colectiva” (collective intelligence) e “a estupidez das multidões” (the dumbness of crowds), não evita cair ela própria em algumas confusões e mal-entendidos.
Vejamos como Pierre Lévy, um dos autores mais relevantes nesta área, define o conceito de “inteligência colectiva”: “
Collective intelligence" is defined as the capacity of human communities to co-operate intellectually in creation, innovation and invention. As our society becomes more and more knowledge-dependent, this collective ability becomes of fundamental importance. (Canada Research Chairs: Canada Research Chair in Collective Intelligence)[2]
Para este autor, a inteligência colectiva está presente nas sociedades animais, mas devido à linguagem, à técnica e às instituições complexas que caracterizam a espécie humana, atingiu com a humanidade uma dimensão totalmente diferente:
L'évolution culturelle humaine peut être considérée comme un lent processus de croissance de l'intelligence collective. (25-08-2003)
É por essa razão que se torna crucial para o sucesso das sociedades modernas compreender de que forma os processos de inteligência colectiva podem ser expandidos pelas redes digitais. Um aspecto comum destas novas formas de inteligência colectiva, segundo Lévy, é uma estrutura de comunicação “todos-para-todos”. O ciberespaço oferece, deste modo, instrumentos de construção cooperativa de um contexto comum a grupos não só numerosos, como também geograficamente dispersos (17-03-2002). Contudo, não se trata apenas da difusão ou distribuição de mensagens, mas sim de uma interacção que implica a negociação de significados e um processo de reconhecimento mútuo de indivíduos e de grupos numa situação de comunicação que cada um contribui para modificar ou estabilizar. O aspecto fundamental passa pela objectivação parcial do mundo virtual de significados dados à partilha e à reinterpretação dos participantes nestes dispositivos de comunicação de todos-para-todos. Esta objectivação dinâmica de um contexto colectivo é um operador da inteligência colectiva, uma espécie de consciência comum, uma subjectivação viva que reenvia para uma objectivação dinâmica: “L’objet commun suscite dialectiquement un sujet collectif” (op. cit.).
Howard Rheingold, na conferência gravada para as Ted Talks intitulada Way-new collaboration (02-2008), apresenta uma perspectiva em muitos aspectos próxima desta desenvolvida por Lévy. Do resumo/apresentação da conferência:
Howard Rheingold talks about the coming world of collaboration, participatory media and collective action – and how Wikipedia is really an outgrowth of our natural human instinct to work as a group.
Como vemos, estamos aqui longe das perspectivas muito negativas de Lanier quanto à cultura participatória e à Wikipédia, ou da noção de “inteligência colectiva” avançada por Kathy Sierra. Para Rheingold (02-2008), a visão tradicional da nossa evolução enquanto espécie baseada na competição e na sobrevivência dos mais aptos é apenas uma parte da história, porque ela não é só isso:
It’s a narrative spread across a number of different disciplines in which cooperation, collective action, and complex interdependencies play a more important role and the central, but not all important role of competition and survival of the fittest shrinks just a little bit to make room. (Rheingold, 02-2008: 1m 13s)
E nessa narrativa o autor vê uma relação interdependente, uma co-evolução, entre os meios de comunicação humanos (human communication media) e as formas como nos organizamos socialmente. Daí que, numa era em que são abundantes as tecnologias que permitem cooperar e partilhar, seja importante aprofundar essa acção colectiva que nos trouxe até aqui.
Agora que esclarecemos o conceito de “inteligência colectiva” no seu sentido original, poderemos, talvez, aprofundar e explicitar um pouco mais o de “sabedoria das multidões” (wisdom of crowds). Na sua análise da obra de Surowiecki, Jason Kottke (14-07-2004) sintetiza as quatro condições que têm que estar presentes, segundo o autor, para que o conceito se aplique:
1. Diversidade – Um grupo em que existam muitos pontos de vista distintos tomará melhores decisões do que outro em que todos têm a mesma informação.
2. Independência – As opiniões das pessoas não são determinadas pelos que as rodeiam.
3. Descentralização – Não há um local central onde resida o poder, e muitas das decisões importantes são tomadas por indivíduos com base no seu conhecimento local e específico.
4. Agregação – Torna-se necessário determinar, de alguma forma, a resposta do grupo a partir das respostas individuais dos seus membros. Esta parece ser a condição mais difícil de satisfazer, dado existirem muitas formas diferentes de agregar opiniões e de nem todas serem adequadas para uma situação particular.
Garantindo-se estas quatro condições, o resultado será que os erros possíveis na tomada de decisão (ou a maior parte deles, pelo menos) serão eliminados. Nas palavras de Surowiecki, citado por Kottke (14-07-2004):
If you ask a large enough group of diverse, independent people to make a prediction or estimate a probability, and then average those estimates, the errors of each of them makes in coming up with an answer will cancel themselves out. Each person's guess, you might say, has two components: information and error. Subtract the error, and you're left with the information.
Dave Snowden (06-11-2007), a partir de uma apresentação de Surowiecki sobre esta temática na mesma data, propõe um resumo que não se afasta muito do de Kottke, embora, desta vez, as condições essenciais para que uma multidão seja mais sábia (wiser) que qualquer dos seus membros individualmente sejam reduzidas a três:
1. Deve haver forma de agregar as respostas individuais para produzir um julgamento colectivo.
2. Tem que haver diversidade cognitiva no grupo.
3. Cada participante tem que tomar as suas decisões independentemente dos outros.
Para Snowden, e é essa contribuição que nos parece poder ajudar a clarificar o conceito um pouco mais, isto faz sentido porque
it links in with large number mathematics - assuming a chaotic system in which each agent is independent of the other, thus probability and statistical distributions work. (06-11-2007)
Como súmula final relativa a estes aspectos, recorramos a Henry Jenkins, Director do Programa de Estudos de Media Comparados do MIT e ao seu Collective Intelligence vs. The Wisdom of Crowds (27-11-2006). Nele, Jenkins procura clarificar as diferenças entre estes dois conceitos e fá-lo de uma forma que nos parece simples e eficaz. Relativamente à “inteligência colectiva” proposta por Lévy, escreve:
In the classic formulation, collective intelligence refers to a situation where nobody knows everything, everyone knows something, and what any given member knows is accessible to any other member upon request on an ad hoc basis. (Henry Jenkins, 27-11-2006)
Ou seja, o modelo de Lévy centra-se nos processos deliberativos que se desenvolvem nas comunidades online quando os participantes partilham informação, corrigem e avaliam as contribuições uns dos outros, e alcançam uma compreensão consensual. Já o modelo de Surowiecki procura agregar dados produzidos de forma anónima, emergindo a sabedoria (wisdom) quando um grande número de pessoas insere os seus cálculos sem que influenciem as contribuições uns dos outros. Em suma, escreve Jenkins,
The Wisdom of Crowds model focuses on isolated inputs: the Collective Intelligence model focuses on the process of knowledge production. The gradual refinement of the Wikipedia would be an example of collective intelligence at work. (27-11-2006)
Existem outras contribuições importantes para compreender estes fenómenos da colaboração e das várias formas como o individual e o colectivo se entrecruzam na Web, nomeadamente de Stephen Downes, com o seu artigo Groups vs Networks: The Class Struggle Continues (27-09-2006), ou de Terry Anderson, com On Groups, Networks and Collectives (30-04-2007) e, cerca de ano e meio depois, More on Groups versus Networks and Collectives (20-10-2008). Mas dado que se orientam mais para as questões da aprendizagem e são muito relevantes para vários dos aspectos que abordaremos posteriormente, trataremos dessas perspectivas na segunda parte.
[1]O exemplo avançado é o de uma espécie de ritual de iniciação que, segundo ele, é costume fazer-se com grupos de estudantes de economia. Pergunta-se a um grupo numeroso de estudantes quantos rebuçados estão dentro de um determinado pote e, embora os palpites individuais exibam grande variação, a média aproxima-se bastante do número exacto.
[2] A julgar pelo site The Canada Research Chair on Collective Intelligence at the University of Ottawa, em http://web.archive.org/web/20030401172932/www.collectiveintelligence.info/, este projecto de Pierre Lévy era ambicioso e de grande relevância, mas parece entretanto ter-se ficado pelas intenções iniciais.
Anderson, Terry (20-10-2008). More on Groups versus Networks and Collectives. Virtual Canuck. Disponível em http://terrya.edublogs.org/2008/10/20/more-on-groups-versus-networks-and... [acedido em 15-12-2008].
Anderson, Terry (30-04-2007). On Groups, Networks and Collectives. Virtual Canuck. Disponível em http://terrya.edublogs.org/2007/04/30/on-groups-networks-and-collectives/ [acedido em 15-12-2008].
Canada Research Chairs (s/d). Disponível em http://www.chairs.gc.ca/web/chairholders/viewprofile_e.asp?id=584 [acedido em 15-12-2008].
Downes, Stephen (13-11-2008). The (Lack Of) Wisdom of Crowds. OLDaily: Stephen’s Web. Disponível em http://www.downes.ca/cgi-bin/page.cgi?post=46932 [acedido em 15-12-2008].
Downes, Stephen (27-09-2006). Groups vs Networks: The Class Struggle Continues. Comunicação feita no âmbito da eFest, Wellington, Nova Zelândia. Transcrição, áudio e slides disponíveis em http://www.downes.ca/presentation/53 [acedido em 15-12-2008].
Jenkins, Henry (27-11-2006). Collective Intelligence vs. The Wisdom of Crowds. Confessions of an Aca-Fan. Disponível online em http://www.henryjenkins.org/2006/11/collective_intelligence_vs_the.html [acedido em15-12-2008).
Kottke, Jason (14-07-2004). Wisdom of Crowds, by James Surowiecki. Kottke.org. Disponível em http://kottke.org/04/07/wisdom-of-crowds [acedido em 15-12-2008].
Lanier, Jaron (30-05-2006). Digital Maoism: The Hazards of the New Online Collectivism. Edge. Disponível em http://www.edge.org/documents/archive/edge183.html [acedido em 15-12-2008].
Lévy, Pierre (25-08-2003). Entrevista ao JDN (Le Journal du Net). Disponível em http://www.journaldunet.com/itws/it_plevy.shtml [acedido em 15-12-2008].
Lévy, Pierre (17-03-2002). L’intelligence collective et ses objets. samizdat | biblioweb. Disponível em http://biblioweb.samizdat.net/article42.html [acedido em 15-12-2008].
Nantel, Richard (14-11-2008). The (Lack Of) Wisdom of Crowds. Brandon Hall Research: Analyzing Learning. Disponível em http://brandon-hall.com/richardnantel/2008/11/12/the-lack-of-wisdom-of-c... [acedido em 15-12-2008].
Rheingold, Howard (02-2008; filmado em 02-2005). [Vídeo]. Way-new collaboration. TED: Ideas worth spreading. Disponível em http://www.ted.com/index.php/talks/howard_rheingold_on_collaboration.html [acedido em 15-12-2008]. Vídeo e transcrição disponíveis em Martien van Steenbergen. http://martien.aardrock.com/2008/03/06/howard-rheingold-way-new-collabor... [acedido em 15-12-2008].
Sierra, Kathy (02-01-2007). The “Dumbness of Crowds”: What gets created?”. Creating Passionate Users. Disponível em http://headrush.typepad.com/creating_passionate_users/2007/01/the_dumbne... [acedido em 15-12-2008].
Snowden, Dave (06-11-2007). Wisdom (?) of Crowds. Cognitive Edge. Disponível em http://www.cognitive-edge.com/blogs/dave/2007/11/ wisdom_of_crowds.php [acedido em 15-12-2008].