(…) Who has that time and that energy and that passion?
The answer is, you do. And for seizing the reins of the global media, for founding and framing the new digital democracy, for working for nothing and beating the pros at their own game, TIME's Person of the Year for 2006 is you.
(…) Web 2.0 is a massive social experiment, and like any experiment worth trying, it could fail (...) This is an opportunity to build a new kind of international understanding, not politician to politician, great man to great man, but citizen to citizen, person to person.
Lev Grossman (13-12-2006). Time's Person of the Year: You. Time Magazine.
O facto de a revista Time ter escolhido para Personalidade do Ano 2006 a grande massa de leitores anónimos, que podiam ver a sua face reflectida na superfície espelhada que sintetizava, numa imagem compósita, um ecrã de computador e um vídeo do Youtube, foi o sinal claro de que a revolução em curso na Web, iniciada por volta do virar do milénio e baptizada, em 2004, Web 2.0, tinha atingido o mainstream. Dos vídeos do Youtube às fotografias no Flickr; dos blogues (individuais e colectivos) crescendo exponencialmente aos espaços de colaboração, como os Wikis, com esse monumento à construção colaborativa que é a Wikipedia; das redes sociais como o MySpace ou o Facebook ao bookmarking social, com o Delicious ou o Diigo; dos sites como o Digg ou o Slashdot, com conteúdos exclusivamente contribuídos pelos utilizadores aos leitores de feeds (RSS), como o Bloglines ou o Google Reader, filtros cruciais para recolher informação na torrente imensa, assistimos a uma profusão de vozes e conteúdos sem paralelo no passado, que variam desde o registo mais amador, por vezes patético, à contribuição elaborada e de excelência, que rivaliza com, ou utrapassa, por vezes, a produção profissional.
Assim, é notório que a emergência da Web 2.0 ou, numa designação também ela elucidativa, da Read/Write Web, é algo que vai muito para além do mero domínio tecnológico, constituindo um fenómeno alargado e global e estendendo-se a todas as áreas da sociedade, da economia à cultura, passando pela comunicação social e a educação. Em poucos anos, a Web 2.0 mudou radicalmente a forma como as pessoas utilizam a Internet e se relacionam com os outros, com a informação e com o conhecimento. De consumidores de conteúdos e informação, os utilizadores passaram também a ser produtores de informação, criando conteúdos que partilham e que passam a fazer parte do corpus de informação e de conhecimento disponíveis na Web, tomando para si o controlo de muitos processos e espaços outrora exclusivamente dominados por corporações e instituições. Do citizen journalism ou jornalismo participatório aos sistemas de recomendação dos próprios consumidores, é o embrião de uma democracia digital solidária, empenhada e voluntária que parece tomar forma.
Por outro lado, o enfoque social e de relação-em-rede (social networking) destas novas tecnologias, combinado com a noção de personalização dos espaços virtuais e de organização da informação, faz com que os utilizadores construam arquitecturas próprias de recolecção, gestão, partilha e produção de informação, uma rede ou ambiente pessoal de conhecimento e de informação, que interage com as outras redes.
Inevitavelmente, estas transformações, que irradiam para todas as áreas de actuação humana, verificam-se com especial incidência no campo da Educação e do uso das tecnologias no apoio às aprendizagens, quer nos aspectos que se prendem com os hábitos e expectativas de quem procura formação, quer na actuação de quem a orienta, quer ainda nos contextos em que ela se desenvolve.
Enquanto alguém que aprende ao longo da vida, o utilizador Web 2.0 transporta consigo um conjunto de contactos, recursos, ferramentas e produtos (dinâmico, mutável e evolutivo), uma espécie de portfólio pessoal combinado com uma rede social de comunicação e interacção, que constitui, de certa forma, a sua rede ou o seu ambiente pessoal de aprendizagem (Personal Learning Environment – PLE). As características deste contexto tecnológico e a experiência que resulta da sua utilização conduzem a uma certa desestabilização e problematização de noções como as de autoria, validade e certificação do conhecimento, aprendizagem formal e informal, relação entre quem aprende e quem ensina ou natureza e finalidade do conhecimento. De facto, numa realidade em que a Web (o mundo virtual, online, o ciberespaço) se constitui como plataforma de serviços, é natural que os indivíduos recorram a instituições/entidades para receber formação (certificada ou não) como mais um dos muitos serviços que utilizam na Internet, sobretudo orientados para a satisfação de necessidades concretas e funcionais, ou seja, muito mais numa lógica de formação just in time do que numa lógica de formação just in case.
Temos, assim, que estes utilizadores trazem para as situações de aprendizagem uma série de expectativas, de formas de actuar e de interagir com a informação e o conhecimento que exigem, por isso, novas formas de oferecer e conduzir essa formação. Por um lado, aspectos como a independência e a autonomia na aprendizagem, a sua personalização e o controlo desse processo por parte de quem aprende, desde sempre fundamentais no ensino a distância, ganham agora uma nova dimensão e relevância, quando a cultura participatória da Web actual exige pedagogias, elas também, participatórias, em que os aprendentes sejam contribuintes activos para a sua experiência de aprendizagem. Por outro lado, a vivência em rede, assente na partilha, no diálogo e na cooperação, requer contextos em que a aprendizagem tenha uma forte dimensão social e a cooperação e o diálogo sejam incentivados.
Do ponto de vista do ensino (instituições e professores), estas questões desenvolvem-se a dois níveis. O primeiro é o de como adequar a sua actuação de forma a responder satisfatoriamente a estas necessidades, tanto do ponto de vista da orientação individual dos seus estudantes, como da gestão e facilitação dos processos de comunicação e cooperação nos grupos, nas comunidades e nas redes. O segundo prende-se com questões relativas à articulação do contexto utilizado para a formação – o ambiente virtual de aprendizagem (Virtual Learning Environment – VLE) ou o sistema de gestão da aprendizagem (Learning Management System – LMS) com os vários ambientes pessoais de aprendizagem (Personal Learning Environments – PLEs) que os indivíduos trazem consigo para o processo.
Aquilo que procuramos com este trabalho é, precisamente, fixar, na medida do possível, dado o carácter fluido e em constante deslocamento deste campo, o estado da arte relativamente a esta convergência entre a Web 2.0 e o e-Learning, designada por Stephen Downes (16-10-2005) como e-Learning 2.0. Tentamos, a partir de uma análise e enquadramento da Web 2.0 e de alguns dos aspectos que consideramos de maior relevância para o ensino online de adultos, caracterizar o e-Learning 2.0 e as várias dimensões em que estas mudanças se fazem sentir com maior intensidade: no perfil e nas características dos aprendentes; nas novas formas de sociabilidade, partilha e colaboração na rede; no esbater de fronteiras entre contextos e finalidades de aprendizagem (formal, informal, ao longo da vida); nas abordagens pedagógicas que se actualizam ou que emergem para responder às novas realidades e exigências; nos desafios que se colocam às instituições para, não comprometendo a qualidade e rigor da educação que fornecem, manterem a sua relevância social e acompanharem o espírito destes tempos.
A reflexão teórica e a produção de literatura de carácter científico e académico sobre a Web 2.0, dada a natureza recente deste fenómeno, a sua rápida evolução e transformação e a própria dinâmica dos intevenientes que o fazem avançar, não seguem exactamente o padrão típico tradicional de muitas áreas de saber. O que predomina, neste momento, são sobretudo reflexões, diálogos e relatos sumários de experiências que aparecem disseminados em blogues, wikis, comunidades de práticas, comunicações em conferências e artigos online (por vezes em revistas) que não cumprem os requisitos académicos e científicos tradicionais (não são publicados em revistas científicas através do processo de peer review, por exemplo). Por outro lado, estes documentos, chamemos-lhes assim, assumem os mais diversos formatos, desde os textuais já mencionados (entradas em blogues, wikis, artigos), passando por podcasts e videocasts, até apresentações em PowerPoint, isoladas ou associadas aos formatos audiovisuais. Temos então, uma bibliografia de suporte pouco convencional, em que os elementos mais tradicionais estão em minoria face a estes, mas que, na linha do que defendem Anderson & Kanuka (2003) em e-Research: Methods, Strategies and Issues, nos parece bastante adequada ao nosso objecto de estudo.
Durante a parte curricular do Mestrado a que esta dissertação diz respeito, utilizámos já várias das ferramentas consideradas Web 2.0, fosse um wiki para desenvolver trabalho colaborativo, o Delicious para partilhar bookmarks ou um blogue para funcionar como e-portfólio dos trabalhos realizados e das reflexões contribuídas nos fóruns de discussão. Mas almejámos, neste trabalho, a um certo isomorfismo entre o objecto em estudo e a própria prática dos processos da sua realização, um pouco dentro do que defende Stephen Downes (16-10-2006) relativamente a Experimentar e Reflectir (aprender) e a Demonstrar e Modelar (ensinar).
Assim, foram várias as ferramentas e serviços usados com grande relevância para a realização deste trabalho e dos quais destacamos: o Delicious e, a partir de certa altura, também o Diigo (que permite adicionar comentários e anotações às páginas e também guarda o bookmark no Delicious) para gestão de bookmarks; o browser Firefox com várias extensões (addons) muitos úteis – entre outras, Delicious, Diigo, Facebook, Video Downloadhelper (para download de vídeos do Youtube e outros sites compatíveis), Scribefire (para publicação em blogues), GMail e, sobretudo, Zotero, uma extensão para gerir e organizar referências bibliográficas que nos permitiu recolher e organizar todo o material de referência online (e não só) – tudo isto no ambiente integrado do browser; o Google Reader, um leitor de feeds (RSS), para estar a par das actualizações de blogues, páginas e outros conteúdos sindicáveis de interesse para o trabalho (começámos com o Bloglines mas migrámos); o Wordle, para criação de tag clouds como as que encerram cada capítulo.
Experimentámos ainda, ou prosseguimos na sua utilização, um vasto conjunto de ferramentas e serviços, no sentido de melhor percepcionarmos o seu funcionamento e o tipo de utilizações possíveis. Referimos, em seguida, os mais significativos: blogue em Wordpress (pessoal, já não ligado ao trabalho académico); Facebook e comunidades no Ning (redes sociais); Elgg (um software opensource para redes sociais que pode funcionar muito bem como um PLE ou um e-portfólio), através da comunidade EduSpaces; Twitter (micro-blogging minimal ou blogging instantâneo, apenas 140 caracteres cada mensagem); Tumblr (micro-blogging com maior número de funcionalidades e mais flexivel); Jing (gravação de acções no ecrã e áudio a acompanhar) para ilustrações ou feedback em contexto de formação; VoiceThread (partilha de imagens, documentos e vídeos, com comentários áudio); Scribd (publicação e partilha online de documentos de vários formatos); Slideshare e SlideRocket (partilha online de apresentações PowerPoint); aplicações de produtividade online, como os Google Docs ou o pacote da Zoho; o Elluminate, para sessões síncronas, com áudio, chat textual e whiteboard. Continuámos, também, a animar e a fazer a gestão da comunidade em Drupal para estudantes do secundário que haviamos criado no início de 2005 - CRIAOnline.
Por último, disponibilizamos um Wiki com o material desta dissertação (texto e, quando possível, elementos multimédia – referências em áudio ou vídeo, por exemplo), que naturalmente será mantido privado até à conclusão do processo, após o que será disponibilizado publicamente.
Downes, Stephen (16-10-2006). Learning Networks and Connective Knowledge. Instructional Technology Forum. Disponível em http://it.coe.uga.edu/itforum/paper92/paper92.html [acedido em 15-12-2008].
Downes, Stephen (16-10-2005). e-Learning 2.0. eLearn Magazine. Disponível em http://elearnmag.org/subpage.cfm?section=articles&article=29-1 [acedido em 15-12-2008].
Esta dissertação divide-se em duas partes: a Parte 1, dedicada à análise do fenómeno da Web 2.0, e a Parte 2, desenvolvida em torno do conceito de e-Learning 2.0.
A Parte 1, A Web 2.0, encontra-se dividida em 2 capítulos.
No Capítulo 1, O Conceito de Web 2.0, procuramos caracterizar esta noção, determinando a sua origem e conteúdo de significação e descrevendo os apectos maiores da cultura participatória imanente. Traçamos, também, a sua genealogia, ligando o desenvolvimento tecnológico às dinâmicas culturais e aos processos de transformação social que o favorecem, potenciam e moldam, bem como identificamos aspectos relativos à comunicação e à partilha de conhecimento já presentes anteriormente na Internet e, depois, na Web.
No Capítulo 2, O Conhecimento, o Individual e o Colectivo na Web 2.0, exploramos a noção de confluência entre vários aspectos da posmodernidade e da cultura digital, bem como o efeito acelerado e ampliador da Web 2.0, para reflectir sobre a problematização da noção de conhecimento, da sua finalidade, validade e produção. Em seguida, procuramos clarificar a relação entre o individual e o colectivo na Web 2.0, bem como vários conceitos, por vezes mal representados ou confundidos, como sejam os de Wisdom of Crowds e Inteligência Colectiva.
A Parte 2, O e-Learning 2.0, distribui-se por 3 capítulos.
No Capítulo 3, O e-Learning e a Aprendizagem Colaborativa, começamos por definir o conceito de e-Learning 2.0 para, em seguida, analisar a importância da aprendizagem colaborativa no ensino online, incluindo o alargamento da noção tradicional de colaboração num grupo/turma para outros contextos, como sejam as Redes e os Colectivos, e referindo algumas estratégias para cada um deles.
No Capítulo 4, O Conectivismo e a Aprendizagem na Rede, damos conta das transformações e oportunidades trazidas pelo software social no que toca à colaboração e à diversificação de contextos e processos de aprendizagem, e falamos de novas abordagens pedagógicas para a era digital, com especial destaque para o Conectivismo.
No Capítulo 5, Os Personal Learning Environments, tentamos caracterizar este conceito multifacetado e complexo, a partir de várias conceptualizações diferentes em torno de noções como diversidade, autonomia, conectividade, abertura, aprendizagem formal e informal, perspectivas sobre conhecimento, poder e controlo por parte do aprendente. Contrastamos, em seguida, os VLEs (institucionais) e os PLEs (dos utilizadores), procurando identificar características e pontos fortes e fracos. Terminamos dando conta das experiências mais relevantes em termos da aplicação e utilização deste conceito de PLE.
Nas Considerações Finais referimos, a partir da caracterização anteriormente feita de algumas abordagens e experiências e das previsões de vários autores, alguns dos desafios e oportunidades emergentes, no presente e num futuro previsivelmente próximo, para as universidades e para quem ensina e aprende nesta nova realidade online.
No final de cada Capítulo incluímos uma Tag Cloud construída a partir do texto do capítulo, que oferece uma representação visual das palavras e expressões mais utilizadas. A tag cloud incluída nas Considerações Finais foi construída a partir de todo o texto da disssertação. A que está presente nas Referências Bibliográficas refere-se, apenas, a esta secção.